O primeiro dia do Super Bock em Stock deste ano afirmou os Capitão Fausto como os verdadeiros cabeças-de-cartaz da noite e trouxe surpresas interessantes como os Public Access T.V, The Harpoonist and the Axe Murderer ou Nakhane. Saiba como correu o primeiro dia do festival.
O festival que conhecíamos como Vodafone Mexefest nos últimos anos regressou este ano com o seu nome original, Super Bock em Stock mas não mudou em nada a sua essência. Numa noite fresca mas adequada à altura do ano, a romaria de palco em palco revelava-se como uma tarefa obrigatória a todos os que queriam acompanhar os seus artistas preferidos ou descobrir boa música nova.
PUBLIC ACCESS T.V
A noite começava com um dos nomes mais interessantes a subir ao palco do sempre acolhedor Cinema São Jorge. Os Public Access T.V trouxeram consigo um som característico de Nova Iorque (de onde são originais) que já ouvimos noutras bandas como os The Strokes, mas diluído com influências de outros nomes grandes do indie rock como Kings of Leon, The Pixies ou Weezer. Com o álbum “Street Safari” na bagagem, depois de o terem editado no início deste ano, o concerto revelou-se certeiro e conquistaram o público presente em bom número na sala. Mesmo numa sala sem lugares em pé, não eram poucos os que dançavam ao som do rock dos nova-iorquinos. No final da actuação ficamos com a ideia que os Public Access T.V são um dos segredos mais bem guardados do indie rock, e merecem claramente a escalada para outros níveis e que venham novamente a Portugal, certamente serão bem-recebidos.
NAKHANÉ
Foto retirada: Facebook Super Bock em StockO cantor sul-africano trouxe batidas do melhor que ouviu neste primeiro dia de Super Bock em Stock. Com uma voz que faz lembrar Anohni, a líder do projecto Antony and The Johnsons, e com uma música dançavel e intensa em simultâneo conseguiu ligar por completo o palco improvisado na Casa do Alentejo, que claramente foi pequeno para a sua música. Esperamos um regresso próximo a Portugal para apreciar na plenitude aquilo que Nakhane tem para oferecer musicalmente.
JOHNNY MARR
Foto retirada: Facebook Super Bock em StockJohnny Marr já não é nenhum miúdo e saberá melhor do que ninguém que é pelo seu trabalho nos The Smiths que é reconhecido, por muito bom que seja o seu trabalho actual ou que venha a ser o seu trabalho futuro. Os The Smiths não foram uma banda qualquer, tiveram um impacto tremendo nos amantes de música que tiveram a oportunidade de assistir ao surgimento, crescimento e final da banda de Manchester, e continua a tê-lo mesmo para quem os conhece agora 30 anos após o final da actividade da banda. As composições líricas do carismático e polémico Morrissey faziam introspecções sobre variados temas como a confusão social e sexual, a morte, a violência, o isolamento, vingança, o veganismo, e muitos outros chegando à vertente política. Com poemas ricos escritos por Morrissey e adorados por adolescentes e adultos em todo o mundo, é estranho saber que a banda britânica só durou uns “míseros” cinco anos. A guitarra de Johnny Marr acompanhava a composição lírica e os devaneios da voz de Morrissey como características únicas da música dos The Smiths. E era isso que os festivaleiros queriam ouvir no Coliseu dos Recreios.
Num Coliseu a metade, com muitos espectadores espalhados pelos outros palcos com propostas musicais mais actuais, Johnny Marr deu um concerto baseado no seu currículo a solo mas com as pepitas de ouro dos The Smiths a intervalar. Resultado: um concerto algo desequilibrado.
Para quem já tinha visto o guitarrista no Super Bock Super Rock de 2013, na altura a apresentar o seu primeiro disco a solo “The Messenger”, nada de novo. Os discos editados a solo por Marr até são interessantes e contêm boas peças musicais, mas o público (pelo menos em Portugal) quer ouvir The Smiths. Portanto, tirando nos bons momentos com os singles a solo “Easy Money”, “The Tracers” ou “Day In Day Out”, o público apenas aguardava até ouvir as músicas dos The Smiths. Johnny Marr conseguiu satisfazer em parte a vontade do público com versões de “Bigmouth Strides Again” e “There Is a Light That Never Goes Out”, que foram claramente os momentos mais altos da actuação.
Johnny Marr tenta avançar com a sua carreira, mas será sempre perseguido pelo “fantasma” Morrissey e The Smiths. Mas o guitarrista não parece afectado por isso, usando-o em sua vantagem. Com a sala a ir compondo-se lentamente, tornou-se evidente que Johnny Marr não era o cabeça-de-cartaz de todos, mas quem o viu assistiu a um bom espectáculo que finalizou com uma das melhores canções que o pop-rock britânico alguma vez viu.
THE HARPOONIST & THE AXE MURDERER
Foto retirada: Facebook Super Bock em StockFestivais como o Super Bock em Stock (com tantos artistas a tocar em palcos diferentes à mesma hora) vão muitas vezes levar a que nomes menos conhecidos sejam prejudicados a nível de audiência por indiretamente competirem com músicos de maior renome. The Harpoonist & The Axe Murderer poderiam ter pertencido a esse grupo, no entanto o intervalo entre Johnny Marr e Capitão Fausto deu tempo suficiente para que muitas pessoas se deslocassem à estação do Rossio procurando ser surpreendidas por algo que não conhecem. E que boa surpresa foi a atuação do duo Canadiano! Donos e senhores de um Blues Rock clássico, mas enérgico, criaram uma atmosfera que pôs as pessoas a dançar e a comentar como era possível todo aquele som estar a sair de apenas duas pessoas. De um lado tínhamos um guitarrista que aproveitava os pés e a própria guitarra para tocar bateria. Do outro, um vocalista e a sua harmónica electrificada para nos dar aquela sensação de “old blues rock”. E funcionou perfeitamente, sendo claro que se estiverem a pensar atravessar o Atlântico novamente para nos visitar, terão com certeza uma calorosa recepção. Porque o clássico é clássico por uma razão. É bom. E tal como The Harpoonist & The Axe Murderer nos meteram a cantar: “They don’t make them like they used to”.
CAPITÃO FAUSTO
Foto retirada: Facebook Super Bock em StockSe há fenómeno na música portuguesa a qual devemos estar atentos a todos os passos, é o dos Capitão Fausto. Poucos nomes na música nacional conseguem encher o Coliseu num dos grandes festivais nacionais, apenas 7 anos após a edição do seu primeiro álbum. Com tantos concertos já dados em Lisboa, é de duvidar que entre os quem tenham estado naquela noite no Coliseu haja alguém que ainda não os tinha visto ao vivo. Por isso quando se soube que os portugueses iriam fechar o primeiro dia do Super Bock em Stock, algumas dúvidas se levantaram sobre a recepção do público. Mas logo de início as dúvidas ficaram desfeitas. Os Capitão Fausto tiveram à sua frente o maior público do dia (só perdendo para Jungle no dia seguinte) e recheado de diferentes gerações que entoavam os hinos da banda portuguesa.
Sob o pretexto da apresentação de novas músicas do futuro álbum “A Invenção do Dia Claro” a ser editado pela banda, o Coliseu encheu e foi surpreendido inicialmente pela disposição da banda, pois num palco tão grande como é o do Coliseu, os membros da banda estavam a ocupar um espaço muito pequeno, estando todos muitos juntos uns dos outros. Os primeiros minutos mostraram-nos uma banda mais do que habituada a tocar as músicas dos álbuns anteriores, e que consegue colocar uma dinâmica diferente nas músicas daquilo que se ouve nos discos. É evidente o crescimento que os Capitão Fausto apresentam desde a edição de “Capitão Fausto têm os Dias Contados”, um dos melhores álbuns editados por cá neste século. Mas a curiosidade maior para quem já os tinha visto nos últimos dois anos era saber como soariam ao vivo os dois singles já conhecidos do novo álbum “Sempre Bem” e “Faço as Vontades”, e o que de novo poderiam ainda apresentar. Em estreia absoluta conseguimos ouvir “Amor é a nossa Vida”. As três músicas contêm características sonoras que associamos aos Capitão Fausto, mas indicia que o novo álbum será diferente do último. E foi com o Coliseu dos Recreios em festa com “Teresa” e “Morro na Praia” que nos despedimos do primeiro dia do Super Bock em Stock.
Texto por: Guilherme Teixeira e João Fragoso