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Patrick Morais de Carvalho: “Acabem com a mentira de que o Belenenses está dividido”

Poucos dias depois da Assembleia Geral Extraordinária que sufragou de forma muito clara a proposta apresentada pela Direcção do Belenenses, Patrick Morais de Carvalho responde a cinco perguntas onde nos fala das conclusões que retira da reunião magna do passado sábado, da vitalidade que a participação dos associados transmite para o exterior e do período negocial que agora se abre.

CFB – Passaram cinco dias sobre a Assembleia Geral em que foi deliberada a denúncia do Protocolo com a SAD e a abertura de negociações para novo acordo. Que pode dizer-se hoje aos sócios do CF Belenenses?
PMC – Pode dizer-se que a Direcção do clube já deu conhecimento formalmente à administração da SAD e à gerência da Codecity daquela que foi a vontade esmagadora dos sócios do clube, que se reuniram numa Assembleia Geral histórica para enviarem não só aos nossos parceiros do futebol profissional mas a todo o país desportivo a forte mensagem de que o Belenenses está vivo e quer continuar a ser uma referência no desporto português.

Os sócios disseram claramente, mais uma vez, que não querem ver o clube sem uma representatividade adequada numa equipa de futebol sénior profissional.

Importa lembrar que a Assembleia Geral de sábado foi mais concorrida do que aquela na qual foi votada a venda da SAD à Codecity em 2012 e que os votos contra foram menos do que aqueles que na altura se verificaram.

É evidente e está bem expressa a vontade dos sócios do Belenenses. É de notar que 84 por cento dos votantes disseram sim à denúncia do protocolo, 13 por cento abstiveram-se e apenas 3 por cento votaram contra.

Bem sei que haverá sempre alguém que defenda que a relação com a SAD não deve ser alterada, mas o que todos ouvimos na Assembleia Geral foi um coro unânime em que todos os que falaram deixaram claro que, no fundo, o que gostariam mesmo era de um Belenenses livre das amarras, dono do seu destino.

Que importância tem a elevada presença de sócios na AG?
Toda! Esta foi seguramente a Assembleia Geral mais concorrida dos últimos anos, superada apenas pelas assembleias eleitorais que duram o dia inteiro e têm normas diferentes.

A AG devia ter começado às 18 horas, mas por causa do jogo de Andebol e por causa da enorme afluência de sócios criaram-se filas intermináveis – aliás este é um ponto a rever em futuras AG’s. Sei que no ponto alto da Assembleia estiveram 340 associados com as quotas em dia a discutir um assunto tão importante, mas também foi visível que durante as quatro horas de discussão alguns foram desmobilizando, principalmente os sócios com mais idade, e que no final, esclarecidos os receios naturais e todas as dúvidas que foram colocadas, a votação foi esmagadora e isso é algo que só pode fazer vibrar um coração azul.

Repare-se que apenas 8 pessoas votaram contra a proposta. 8! O que dá 3 por cento.

Os estatutos determinam hoje que as abstenções entram nas contas, porque se fala de deliberações por maioria absoluta, mas numa maioria simples, processo anterior, com votação idêntica teríamos um resultado de 96,5 por cento de votos a favor, contra 3,5 por cento de votos contra. Isto tem de querer dizer algo.

Isto tem de transmitir uma mensagem forte não só à administração da SAD e à Codecity, mas também à Federação, à Liga, ao legislador e, muito mais importante, aos sócios e simpatizantes do Belenenses.

Chega de andarem a dizer que os Belenenses estão divididos.

Acabe-se com a mentira de que o Belenenses está dividido! O Belenenses não está dividido. O Belenenses fala a uma só voz, a voz da sua história e a voz do seu sentir. Os resultados desta AG, analisados seja por que prisma for, significam apenas uma coisa: apenas 3 por cento dos sócios foram contra a denúncia do protocolo, mas nem esses podemos garantir que o fizessem por estarem a favor da administração da SAD, pois o que foi manifestado por quem interveio foi sempre no sentido de haver receio de indemnizações.

Relativamente ao que é o Belenenses, é evidente e claro que todos queremos o melhor possível. Depois disso há o gostar-se ou não se gostar de uma direcção ou de outra, mas isso resolve-se sempre de forma fácil e democrática. Quando há eleições os sócios podem formar listas e candidatar-se, ou não o fazendo apoiar outros que o façam. O Belenenses é um clube democrático e esta AG demonstrou-o de forma clara.

A propósito da presença de tantos sócios na Assembleia Geral, importa-me ainda frisar o seguinte. Há sondagens feitas para eleições nacionais cuja base de amostra é menor do que os sócios presentes e que votaram nesta AG, sobretudo se tivermos em conta que Portugal tem 10 milhões de habitantes e o Belenenses cerca de 8 mil sócios, muitos dos quais ainda sem idade para votar.

Mas para além do resultado, houve na AG um momento negativo…
(interrompendo) Muitíssimo! O momento em que alguns consócios se envolveram em confrontos físicos.

Não foi bonito, embora do local onde eu me encontrava não tenha conseguido ver tudo o que se passou. Contaram-me, no entanto, pessoas que se encontravam bem posicionadas que houve de facto alguns empurrões, mas que grande parte da confusão é apenas aparente, pois da mesma forma que alguns sócios se exaltaram, muitos outros se intrometeram para tentar serenar os ânimos.

Relativamente a este episódio, no entanto, há algumas ideias que quero transmitir. A primeira das quais que não aceito enquanto presidente da Direcção é que se diga que não houve civismo, ou que houve coacção. O Belenenses não é assim, nem os Belenenses são assim. A prova é que a pronta e eficaz intervenção do presidente da Mesa da Assembleia Geral sanou os problemas e a votação decorreu num clima de serenidade que só é possível nas grandes instituições. Quem quis votar a favor votou, quem quis abster absteve-se e quem quis votar contra votou.

Não houve qualquer ruído, nem pressão e quem votou pode testemunhá-lo. Mais, no final aquilo a que se assistiu foi a mais uma grande manifestação de belenensismo, com todos a trocarem impressões e a partilharem um desejo único, o desejo de que o Belenenses volte a ter uma voz ativa na sua equipa de futebol sénior e que consiga fazer respeitar a sua história e os seus valores quase centenários.

Sei que a erupção de emoções aconteceu num momento fundamental do meu discurso final, numa altura em que levado pela emoção me expressei de forma errada.

Já vi a gravação do vídeo do discurso nos instantes que antecederam a interrupção da AG e percebo que cometi o erro de me expressar mal, pois quando estava a querer explicar que as abstenções na prática tinham efeito igual ao dos votos contra, pareceu que estava a mandar as pessoas saírem da AG.

Estava a ser um discurso muito vibrante, sublinhado várias vezes por muitos aplausos, em que defendia o que para mim é a diferença entre o Belenenses viver e reafirmar-se ou o Belenenses sucumbir para sempre aos interesses que não são os nossos, e houve uma altura mesmo no final em que me deixei levar pela emoção e falhei na forma e no conteúdo. Foram 20 segundos que, se pudesse puxar o filme atrás, apagaria sem qualquer espécie de dúvida.

Tivesse eu a capacidade de me manter sereno naquele momento, e teria sido com voz serena que teria explicado a coisa de outra forma. Teria explicado que quem não queria votar contra para não impedir o processo, mas também não queria votar a favor da proposta por se sentir desconfortável, teria como alternativa simples sair do recinto e posicionar-se nas bancadas durante a votação. Jamais eu mandaria embora alguém da AG.

Mas assumo aqui que aquele foi um momento em que se eu tivesse conseguido ser menos inflamado na forma como tentei transmitir a minha mensagem, porventura teria sido o momento de maior união da família belenenses desde que a minha Direcção está no activo e por isso entendo que foi, desse ponto de vista, uma oportunidade perdida da qual me penitencio.

Sei que muita gente me vê arrogante, e disse-o na AG. O que sou é levado pela paixão belenense, mas peço que me façam justiça num ponto: a nossa Direcção é talvez aquela que mais dá voz aos sócios, aquela que mais explica os passos e decisões, aquela que mais recentra o poder de decisão nas AG’s.

Isso é tudo, repito, façam-me essa justiça, sinal de tudo menos de arrogância. Era fácil ficar sentado no meu gabinete a tomar decisões, mas o Belenenses não é meu, é dos sócios. E é o que os sócios querem que deve ser feito. Eu tenho só a honra de ser o escolhido, por agora, para o fazer. E fá-lo-ei com orgulho apenas até ao dia em que os sócios o quiserem. No dia seguinte, lá estarei, como antes, a vibrar nas bancadas pelas nossas cores.

Ainda a propósito desse momento mais negro na AG, quero também frisar que poucos dias depois o Belenenses jogou em Setúbal, com o Vitória, e lá estiveram nas bancadas, unidos pelo mesmo sentir, pessoas que estiveram em desacordo naquela AG. Não aceito que se façam filmes de terror à volta do que foi um acontecimento que não deveria ter existido mas que, se formos justos, não é único e foi resolvido com serenidade e urbanidade.

Foi por causa dos tumultos que decidiu retirar-se das negociações com a SAD e com a Codecity para um novo protocolo e nomear uma comissão presidida pelo presidente da AG, Pedro Pestana Bastos, e pelo presidente do Conselho Geral, Henrique Abecassis?
Quem esteve na Assembleia Geral apercebeu-se de que durante o tempo que durou a interrupção da AG eu estive sozinho. Que antes de recomeçar a falar fiz uma grande pausa. Desconfio sinceramente de que não houve cenário que não tivesse pensado, mas houve um instante em que olhei para um sócio mais antigo, que tinha feito uma intervenção apaixonada e cheia de sentimento, e me senti a acalmar. Percebi que o apoio daquele sócio, e de tantos outros que sempre me foi manifestado, antes e depois da AG, não podia ser traído por um momento como aquele. Sei bem que mesmo entre quem apoia a proposta que foi votada há quem não me apoie a mim pessoalmente. E como forma de unir todos os belenenses, decidi em consciência que o melhor seria eu ficar de fora. A melhor prova de que para a Direcção do Belenenenses o clube e os sócios estão acima de tudo é este desprendimento.

Eu sei, e todos sabemos, que quem conseguir negociar com a SAD e com a Codecity um acordo que retome o normal relacionamento entre as partes terá um lugar na história do clube, mas não é isso que procuro. Eu quero o mesmo que todos os sócios, um Belenenses à Belenenses.

E ficarei muito feliz no dia em que o presidente da AG me vier dizer que tem um acordo preparado para submeter à votação da AG. Sim, porque eu acredito honestamente que o Pedro Pestana Bastos, o Henrique Abecassis e os elementos designados pela Direcção para as reuniões vão conseguir um entendimento com a SAD e com a Codecity. Estamos de boa–fé e tenho mesmo a convicção de que será possível chegar-se a uma base de entendimento que defenda os interesses de todas as partes. As minhas vitórias pessoais são as vitórias do Belenenses.

Sair das negociações permitir-me-á dar mais atenção a outros dossiers fundamentais para a vida do clube, como a requalificação do complexo desportivo e aspectos desportivos relacionados com as modalidades e o futebol de formação.

O Belenenses está muito bem representado nas negociações com a SAD e com a Codecity e fica agora também o desafio: o director executivo da SAD e gerente da Codecity já deu várias entrevistas a dizer que não negoceia com as direcções eleitas e já desconsiderou as diligências de entendimento e acordo de dois presidentes da Direcção, de um presidente do Conselho Geral e de um presidente do Conselho Fiscal e Disciplinar.

Evidentemente e porque não é ele quem decide quem dirige o clube, vai agora ter uma oportunidade soberana para mostrar quais as suas intenções. Se também recusar negociar com esta comissão ou se não conseguir chegar a acordos equilibrados está a dizer que recusa negociar e chegar a entendimento com os sócios, pois o presidente da Assembleia Geral é o máximo representante dos sócios. Acredito que a SAD e a Codecity não podem, nem vão, recusar dialogar e chegar a acordo com os Belenenses.

Além dos passos dados relativamente à Codecity e à SAD que mais será feito nos próximos tempos?
Os próximos tempos serão de serenidade. Só com um clima de serenidade a comissão nomeada para negociar poderá aproximar posições entre as necessidades do Belenenses e as da Belenenses Futebol, SAD e da sua accionista Codecity.

O processo negocial deverá decorrer com a confidencialidade necessária, e peço a compreensão de todos os sócios para o facto de não ser possível andar sempre a informar de tudo o que se passa. Evidentemente, se houver algo de muito importante, os sócios serão os primeiros a saber, mas isso acredito que não seja novidade para ninguém já que temos sempre trabalhado dessa forma. Além disso, a Direcção do Belenenses empenhar-se-á em trabalhar para sensibilizar o legislador da importância de se fazer uma revisão da lei das SAD que impeça que clubes históricos como o nosso possam ver-se num colete de forças, como já aconteceu a vários emblemas em Portugal.

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