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Julio Velázquez: “Senti-me agradecido pelo convite do Belenenses”

Em entrevista ao jornal online, Observador, o treinador espanhol Julio Velázquez abordou os mais diversos temas, centrando-se muito no seu tipo de futebol e na experiência que está a ter em Portugal. Numa entrevista intimista, foi possível descortinar que Julio se manterá até ao fim fiel à sua ideia de jogo e que tem para si que é muito importante ter uma relação de confiança com os jogadores.

Aqui fica a entrevista do site Observador:

Há alguma equipa no mundo que o faria estacionar o autocarro à frente da baliza?

Não. É uma questão de ter uma certa sensibilidade com a maneira de proceder no jogo. Em estilo de jogo, acho que o melhor a fazer é atacar e ter a bola. Tentar que o jogo aconteça no campo do rival e que defendamos o mais longe possível da nossa baliza. Claro que nos temos de adaptar a cada momento, em função da equipa em que estás, do perfil de jogadores que tens e do adversário. Mas, sobretudo, a minha ideia é sempre atacar, jogar no campo do adversário e defender longe da nossa baliza. A partir daí, hombre, há jogos e jogos.

É preciso ter coragem para jogar assim?

Não me parece. Qualquer tipo de proposta de jogo parece-me lícita. Respeito tudo. Cada um tem a sua maneira de jogar, com base em como foste criado, pessoal e profissionalmente. É como tudo. Vais a um museu e gostas de um quadro, eu vou ao mesmo museu e gosto de outro quadro. Há que respeitar tudo. Não tem a ver com coragem. É uma questão de sensibilidade.

De que quadros gostava mais em miúdo então?

[Ri-se]. Os mesmos de agora: os que me despertem emoção e paixão. Acredito que aconteça o mesmo a ti, e a ti [aponta o dedo para o jornalista e para o fotógrafo]. É-me igual se os clubes são da minha cidade, da minha região ou do meu país. Vejo tudo. Quando me for embora daqui vou ver futebol durante cinco horas e continuo à noite. Vejo a nossa liga e tenho de estar atento a tudo o que acontece, para conhecer jogadores e adversários.

Quem é o Julio Velázquez como treinador?

Bom, sou alguém que se engana e que, de vez em quando, acerta. Como qualquer profissional. Tento ser honesto com toda a gente, falar na cara, não enganar ninguém. Gosto muito da normalidade e naturalidade, é dessa forma que tento liderar o grupo. Dou prioridade ao coletivo sobre o indivíduo, sempre. Tento que o que se treina passe sempre para o jogo, para a competição, e que isso, além do resultado, consiga emocionar o adepto. Obviamente também quero sempre ganhar, mas tentar sempre que o caminho que leve à vitória seja capaz de deixar o espectador contente com o que vê.

Como prefere chegar à baliza contrária: com muitos passes ou com poucos?

Às vezes chegas à baliza de forma convincente só com um passe. Em outras precisas de juntar uma sequência de 20 passes. Se uma equipa só é capaz de chegar de uma maneira à baliza rival está condenada ao fracasso. As equipas têm de dominar vários registos para se adaptarem ao que acontece no jogo. Não há que ser extremista nisto.

O Belenenses é uma equipa com muito mais calma e paciência desde que chegou, a sair a jogar desde trás, no guarda-redes. Acha que é assim que se joga bom futebol?

Bueno, o bom futebol, para mim, é as equipas saberem o que têm de fazer em cada momento, e que sejam fiéis à sua ideia. Que tenham um estilo de jogo definido e que os jogadores acreditem nele. O que tentamos é que os ataques tenham ordem e sequência. Acredito que, quando se ataca de maneira ordenada — e, para mim, é a bola que te dá a ordem –, a equipa estará depois mais organizada para recuperar a bola o mais rápido possível, quando a perder. A predisposição para a recuperar será maior. Há que distinguir entre ordem e organização. É a bola que te de dá a ordem.

Foi difícil convencer os jogadores a pensarem assim?

Ao fim de contas, o treinador tem que se adaptar aos jogadores que tem. O Belenenses não tem filial [equipa B] e começou a época a competir no campeonato, na Liga Europa e nas duas taças. Quando chegámos, a equipa já não estava na Europa e na Taça de Portugal. O plantel era muito amplo e tentámo-lo reduzir em número, dentro do perfil de pessoa e de jogador que queríamos. A partir daí, o importante é que a tua mensagem chegue ao grupo. E graças a Deus que tenho uns jogadores excecionais, sobretudo no aspeto humano, e estão muito recetivos às ideias que lhes transmitimos desde o início. Estamos muito felizes como as coisas estão a correr.

Mais do que os treinos e a tática, um treinador tem de ser capaz de fazer com que acreditem nele?

É o mais importante. Podes trabalhar muito, mas se o jogador não acredita em ti e, por consequência, na tua ideia, estás condenado ao fracasso absoluto. O fundamental é que toda a gente com quem tens de lidar no dia-a-dia — os jogadores, a equipa técnica, o staff — acredite em ti, na tua mensagem e na tua ideia. Isto não acontece só no futebol, pode-se extrapolar para qualquer área profissional e para a vida.

Como se consegue isto? É a ser mais amigo dos jogadores?

Houve vezes que consegui e outras em que não. Como tu na tua profissão e como qualquer “filho do vizinho” [expressão espanhola]. A primeira coisa é saber conviver com o êxito e com o fracasso. Como? Aceitando. A ferramenta que tento utilizar para que tenha mais sucesso do que insucesso é falar com eles. Convencê-los a partir do conhecimento e não da imposição. Não acredito nisso. Nunca me conseguiram convencer de nada dessa maneira.

Foi importante ter alguém como o Abel Aguilar para o ajudar nisso?

Sim, mas como também o foram Carlos Martins, o Gonçalo Silva ou o Brandão. Quando colocas um indivíduo à frente da equipa, estás morto. Para mim são todos iguais. Muitas vezes, o termómetro de uma equipa são os que não jogam. Se os que não têm tantos minutos, não te dão qualidade no treino nem apertam com eles próprios, estás morto. Todos são importantes por causa disso.

Mas não é normal que o Belenenses tenha o capitão da seleção colombiana no meio campo. Foi difícil trazê-lo para aqui?

Na verdade, não. Claro que se têm que juntar uma série de circunstâncias para contratarmos certos jogadores. A primeira é conhecer o mercado, a segunda é ter noção da situação em que o jogador se encontra, a terceira é chegar a esse jogador ou a alguém que o rodeia e, por último, que a tua ideia de jogo coincida com o perfil do jogador. O Abel estava sem jogar desde maio, já falávamos há muito tempo. O Bakic praticamente não tinha jogado esta época. Essas situações ajudam, claro. É mais fácil que um jogador venha para Lisboa do que para a aldeia do meu pai, que tem 20 habitantes. O Belenenses é um clube humilde e familiar, mas que te dá tudo, todos te ajudam.

O que diz isso do Abel, então?

Que, sendo alguém com um historial importante, teve a humildade para vir e ser mais um. É algo ao qual acredito que se deva tirar o chapéu. Isso reflete o quão bom e formidável é este balneário.

Começou a trabalhar muito cedo, não foi?

Sim, sim, com 15 anos.

Não quis ser jogador?

Sempre quis. Mas o certo é que, mal comecei a treinar, tive a certeza que queria ser treinador. Nos primeiros anos ainda conjuguei as duas coisas, mas demorou pouco tempo até começar a treinar gente que tinha quase a minha idade. Com 21, a média de idade da equipa estava nos 33 anos. Apaixonei-me pelo treino e decidi que ia tentar que este fosse o caminho a seguir.

Acha que existe um preconceito com treinadores muito novos?

Vivemos numa sociedade de etiquetas. Ontem, se o Coman não cruza a bola aos 90’ para o Müller fazer golo, as pessoas estariam a dizer que o Guardiola era um fracasso. Agora é um fenómeno [no dia anterior, o Bayern de Munique venceu a Juventus por 4-2 no prolongamento da segunda mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões]. É normal. Nesta sociedade não analisamos o processo, analisamos o resultado final. Vivemos permanentemente rodeados por rótulos. Quando és jovem, geras inveja quando ganhas, e quando perdes, és um falhado. Não acredito nisso.

O Guardiola é um exemplo para si?

O meu principal exemplo são os meus pais. A partir daí há pessoas que dignificam a profissão e outros que não. Se a sensibilidade para o jogo de um certo treinador for semelhante à tua, ajuda a que ele seja uma referência. Mas há que aprender com toda a gente, é o que tento fazer. Há que estar aberto, se pensas que sabes tudo, estás morto. Há que ir enchendo a mochila até ao dia em que morres.

É o oitavo espanhol a treinar em Portugal nos últimos 10 anos. Estava atento ao futebol português antes de vir para o Belenenses?

Sim, já conhecia perfeitamente, não só desta temporada. Sempre segui a primeira liga, a segunda, as equipas B, os juniores… Sempre gostei e me interessei. Já viajei muito para ver futebol em Portugal.

Falou com algum treinador espanhol antes de vir? Com o Lopetegui, por exemplo?

Não falei com ninguém.

Sentiu que não precisava?

Tinha treinado em Espanha o ano passado, até dezembro. Em junho tive a hipótese de entrar em vários projetos. Durante esta época também me chegaram algumas ofertas, mas a minha ideia era treinar num sítio onde fosse feliz e conseguisse desfrutar do dia-a-dia. Já conhecia o presidente do Belenenses de outra situação, em que havia a possibilidade de vir para aqui. Este era o clube ideal para trabalharmos nesta altura. E a verdade é que estou muito feliz com tudo: a direção, os jogadores, as pessoas do clube. E adoro a cidade.

Ou seja, o convite do Belenenses não o surpreendeu.

Não. Senti-me agradecido. A verdade é que, quando há trocas de treinadores, podes ser chamado a qualquer momento. Um dos pontos que me levou a decidir vir para aqui foi a ambição que o clube demonstrou em desenvolver um projeto.

Há uma semana, o Paulo Fonseca disse que preferia perder com o Belenenses do que contra uma equipa que joga em 30 metros. O que achou disto?

Senti-me honrado e agradecido pelas palavras do Paulo. Já o dissera, antes de jogarmos contra o Braga, que o Paulo me parece um grandíssimo treinador. Está a fazer uma época excecional. É um dos profissionais que dignifica este trabalho. Oxalá que consigam passar a eliminatória [dos oitavos de final da Liga Europa].

Disse mais que isso: que o Paulo Fonseca era um dos melhores treinadores do mundo, depois de ganhar ao Braga por 3-0.

Sim, disse-o porque acredito nisso, sim. Parece-me um dos melhores treinadores do mundo atualmente, sem dúvida. O Braga é uma equipa com uma proposta de jogo atrativa, que sabe ao que joga, e parece-me treinar bem e competir bem. Vais ao estádio assistir e geram emoções e paixões. É uma equipa que favorece o espetáculo.

Gosta mais do estilo do Braga do que do Benfica, Sporting ou FC Porto?

Não me vou pronunciar sobre isso. Não sou ninguém para os comparar.

Dois meses depois de chegar ao Belenenses, renovou contrato. É um reconhecimento ao seu trabalho e uma confiança de que vai gerar essas paixões?

Renovamos conjuntamente. Após duas semanas, ou semana e meia, de estar aqui, a direção já me estava a falar da renovação. Deixámos o assunto para quando terminasse o mercado de inverno. Estou-lhes agradecido pela dedicação da SAD e do Rui Pedro ao projeto. É um contexto interessante para continuar a trabalhar e a caminharmos juntos. Estou muito feliz e espero que eles também estejam.

A pré-temporada que terá com a equipa é uma hipótese para vincar a ideia de jogo que pôs o Belenenses a jogar assim?

As pré-temporadas servem para trabalhar e construir situações de jogo que possam ter continuidade na temporada. Mas ainda é muito cedo, ainda não estou a pensar nisso. Primeiro há que terminar esta época. Ainda faltam oito jogos e vamos tentar conseguir matematicamente a manutenção.

Já tem 32 pontos. Em teoria, esses vão chegar.

Numa liga com 18 equipas em que duas descem, a manutenção está nos 28, 29 ou 30 pontos. Com mais de 32 pontos seria complicado descer, mas nunca se sabe. Quando nos contrataram estávamos a três pontos da descida, no 15.º lugar. Temos que estar tranquilos e competir jogo a jogo.

Ainda não se fala de Europa no balneário?

No final logo veremos onde estamos. ”

Julio Velázquez: “Sou alguém que se engana e que, às vezes, acerta”

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