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“Ganha-se demasiado nesses lugares. É tudo excessivo”

Ganha-se demasiado nesses lugares. É tudo excessivo, “Ganha-se demasiado nesses lugares. É tudo excessivo”

Houve um tempo na vida de Rui Pedro Soares em que ele só saía de casa à noite. “Eu dava umas voltas a pé, sempre com a cabeça à roda, à roda; e depois voltava, todos os dias assim.”


O antigo administrador da Portugal Telecom não atendia as dezenas de chamadas que os jornalistas lhe faziam para lhe perguntar sobre a divulgação das escutas em que fora apanhado a falar sobre a compra da TVI pela empresa de telecomunicações. Mas também sobre o processo Face Oculta, em que o seu assessor jurídico na PT, Paulo Penedos, estava envolvido. E ainda sobre a relação com José Sócrates, na altura primeiro-ministro; mas também sobre o processo Figo/Taguspark. Aqueles foram tempos difíceis e Rui Pedro Soares um maná de informação. A caminhada noturna ajudava, mas só o passar dos anos permitiu o regresso à normalidade. “Eu era novo, mas aguentei o embate. Não perdi um único processo e foram extraídas nove certidões judiciais. Não deram em nada: zero. Até ganhei o direito de ser indemnizado pelo Sol por violação de uma providência cautelar que interpus. Até a casa de José António Saraiva [diretor do semanário] esteve penhorada a meu favor.”

Desse confronto com o jornal, Rui Pedro Soares tirou uma indemnização de 400 mil euros, mas recusa falar mais sobre o assunto e confirmar o valor, apesar das minhas várias tentativas de voltar ao tema durante o jantar marcado para o Este-Oeste, um restaurante no CCB escolhido pelo próprio após alguma hesitação. Podia ter sido no Cantinho do Avillez, a primeira opção, mas o atual administrador e dono (“com um grupo de mais quatro amigos”) da sociedade anónima desportiva do Belenenses optou por um sítio com mais espaço, para falar à vontade. “Eu marco, eu preparo, eu organizo”, dissera na véspera, como se quisesse montar com o máximo de cuidado o cenário para este regresso.

“Vamos falar de tudo, não é?” A ideia é essa, disse-lhe, com a sensação de que se ia preparar como se fosse mais um dos interrogatórios judiciais a que se sujeitou nos últimos anos. Um deles foi o processo Figo, em que recaía sobre ele a suspeita de ter usado um contrato com o Taguspark, onde a PT era acionista, para pagar ao ex-futebolista o apoio a Sócrates nas eleições legislativas.

Pedimos um sushi-sashimi, para ele, e uma água sem gás; e uma pizza Diavola, para mim, com uma cerveja. Quando chegámos, por volta das 21.00, a mesa estava marcada e as empregadas mais solícitas do que seria normal. Está bem aqui, doutor? Decorriam na sala arejada duas festas de anos familiares, não de amigos. Havia muitas crianças e animação, mas Rui Pedro Soares, calças de ganga escuras e blazer azul – senta-se, tira o casaco, arregaça as mangas da camisa branca -, não quis mudar de mesa. “Estamos bem aqui, obrigado. Não faz mal”, diz. Ele tinha pressa, queria começar a conversar imediatamente, preparara o primeiro assunto ao milímetro: o financiamento dos jornais, onde chegou a pensar investir.

“Quando saí da PT, em 2010, e tinha mesmo de sair porque se não acomodava-me àquilo e dava cabo da minha vida, pensei em fazer um jornal, um deles popular.” Como o Correio da Manhã?, pergunto. Para combater o Correio da Manhã, a ideia era essa? “[gargalhada] Estudei o assunto com o Emídio Rangel, um tipo incrível, mas cheguei à conclusão de que não era economicamente viável. Pensei ainda em fazer uma editora ou comprar uma livraria, mas também não dava e então optei pelo Belenenses.” Sobre os jornais, o antigo administrador da PT tem uma tese: só terão viabilidade se pagos com dinheiro público. “Os riscos de manipulação ou autocensura dos jornais, para não prejudicarem os poucos anunciantes que ainda mantêm hoje, são piores do que se for o Estado a pagar.”

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