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Entrevista – Gonçalo Brandão: “Precisava de voltar onde não tivessem de me dizer o que é lutar por uma camisola”

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Queremos agradecer ao nosso capitão pelo tempo dispendido, pela simpatia e honestidade. A melhor das sortes, para um grande Belenense.

Gonçalo Brandão

Belenenses:

Comunidade Azul(CA) – Gonçalo, chegaste ao Belenenses um menino pequenino e agora és um homem já formado. Como foram os teus primeiros 15 anos de Belenenses? Como é que os descreves?

Gonçalo Brandão(GB) – Foram muito bons. Foi o primeiro e único clube onde joguei em Portugal. Comecei com 6 anos, vim fazer um treino de captação, como vêm todas as crianças dessa idade. Gostaram de mim, fiquei, e depois até aos 21 anos foram todos os anos a representar este clube.

CA – Como era o teu dia a dia aqui no clube?

GB – Era a escola durante o dia, e depois, à noite, treinos. Isto nas camadas jovens, até aos juniores. Nos juniores já havia alturas em que treinávamos de manhã. Era a vida normal de qualquer jovem que está no escalões de formação dos clubes. Treinos à noite é complicado, virmos da escola cansados e ainda treinar. São idades em que nós não sentimos o cansaço, portanto, era puro divertimento. São tempos muito bons e que gostei muito de os viver. Espero agora com o meu filho, isto sem querer fazer-lhe pressões ou algo do género, vive-los. Como fizeram os meus pais. Gostava de fazer isso com ele, vir à  noite ver os treinos.

CA – Estreaste-te muito novo na Liga Portuguesa, ainda para mais, contra um grande, isso foi importante para ti? Estavas à espera? Que motivação extra te trouxe?

GB – Não estava à espera. Já foi para mim uma surpresa com 16 anos ter sido chamado para o estágio de pré-época dos seniores. Lembro-me que fui com mais três colegas meus dos juniores, o Ruben Amorim, o Diogo Andrade e o Bruno Simão. Fomos os 4 para Gouveia com o Manuel José, depois ali deram-me a notícia que ia ser inscrito no campeonato. Logo aí foi uma grande surpresa; que foi ainda maior quando me disseram que ia entrar nos convocados e me estreei em Alvalade, contra o Sporting. Perdemos 3-2 e entrei nos últimos 10 minutos. Mas pronto, a maior surpresa foi contra o F.C.Porto, quando, devido a algumas limitações de jogadores, fui titular. O doutor Baptista, o psicólogo da altura, foi-me preparando durante a semana para esse jogo. Não é fácil, com 16 anos. Estava a ir à escola, às aulas de manhã e sabia que no fim de semana ia jogar a titular num jogo contra o Porto. O Porto do José Mourinho, com Deco, Paulo Ferreira, Derlei; uma equipa fantástica. Mas consegui gerir bem isso. A nível individual correu-me bem, fiz o golo e recebi elogios por parte do treinador no final do jogo. Foi pena o resultado colectivo, mas naquela altura, com 16 anos, confesso que fiquei muito contente por ter feito o golo e ter jogado bem, apesar de ter perdido o jogo.

CA – Como é que foi para um menino de 16 anos, lidar com toda a atenção que adveio de teres marcado um golo ao Porto, de José Mourinho?

GB – Foi engraçado. Na escola, depois do jogo do Porto, os miúdos vinham falar comigo, olhavam e cumprimentavam-me. Foi completamente diferente. Tudo isso aos 16 anos, altura em que não estás preparado para essas coisas. Mas foi bom, faz parte do futebol. Com a idade aprendes a gerir essas coisas. Na altura penso que geri bem, sem entrar em deslumbramentos. Depois até dei entrevistas aos canais televisivos, porque na altura não era normal um jovem de 16 anos a jogar. Depois mais tarde, o Benfica lançou o Manuel Fernandes.  Na altura era muito difícil isso acontecer. Mesmo o Ruben Amorim e o Rolando começaram mais tarde. Não era normal, portanto teve alguma repercurssão mediática. Acho que sou dos mais jovens a ter-me estreado na Liga e dos mais novos a ter feito um golo.

CA – Após tudo isso, passaram-se mais 5 épocas de ligação ao Belenenses, como é que as descreves?

GB – Na época de estreia, com o mister Manuel José, ainda fui jogando algumas vezes. Eram tempos diferentes, tempos em que não havia tanta aposta nos jovens, tempos em que não havia esta crise financeira que nos obriga – e bem! – a apostar no jovem produto português, nas camadas jovens. Nessa época os clubes viviam mais folgados a nível financeiro e como tal, tinham capacidade de ir buscar fora. Foram épocas difíceis, mas foram épocas de aprendizagem, procurei sempre aprender. Tive uma época em Inglaterra, que foi muito boa para mim, porque tinha 17 anos, ia fazer 18, tinha idade de júnior ainda e fiz 42 jogos na equipa de reservas do Charlton, que lá é considerado um campeonato senior. Foi bom para mim, para ganhar bagagem. Depois voltei, já com o mister Jorge Jesus. Pedi-lhe logo para ser emprestado ao Olivais e Moscavide. Ele não me deixou. Disse que ia aprender mais com ele, mesmo não jogando tanto, do que se fosse para o Olivais. Era muito novo e ele disse-me que tinha de aprender primeiro a base do que era o futebol. E a verdade foi essa, em dois anos aprendi muita coisa. Foi graças a esses dois anos que não tive dificuldade nenhuma a ambientar-me a Itália e ao modelo de jogo. Cheguei lá e tacticamente já estava evoluído e foi mais fácil adaptar-me ao futebol italiano.

CA – Depois de um longo percurso com a nossa camisola, partiste para Itália. Conta-nos como foi esta tua aventura num país diferente.

GB – Foi boa. Para já, não queria ter saído da maneira como saí. Saí a custo zero, saiu o Rolando a custo zero, saiu o Amorim a custo zero, saíram jogadores da formação a custo zero. Tinha indicações da parte do treinador que na próxima época iria jogar a titular. Isto porque o Rolando, que fez um campeonato fantástico iria sair; porque o Pelé iria para Inglaterra, e eu seria o titular, isto num processo natural, que já vinha de trás. Nunca mais me esqueço da reunião que tive com o Presidente da altura. Sinceramente, não me lembro do nome do senhor, porque quando cheguei a Itália, ele também já não era presidente. Na altura não tinha empresário, fui lá com o meu pai e fui lá e disse: “Olhe, gostava de ter um melhoramento contratual”; eu era um miúdo, portanto, era uma coisa mínima. Ele, depois de perguntar como é que eu me chamava, dizendo que não  sabia quem eu era, disse-me que “não vai dar, temos aqui dois jogadores brasileiros que vêm para o teu lugar”. Na altura, não eu que era um menino, mas o meu pai chateou-se e disse que ia sair a custo zero. Sinceramente, naquela altura não me pareceu que a direcção do Belenenses tivesse ficado chateada por eu ter saído a custo zero. Foi uma coisa que me deixou triste, mas como se diz no futebol, as pessoas vão e vêm e o que fica é o clube. Depois tive duas opções, ou Espanha ou Itália. Optei por Itália, tanto por ser central, como por achar que se adequava melhor ao meu estilo de jogo. Correu muito bem. Nos primeiros 3 meses o treinador, sendo sincero, disse que enquanto não aprendesse a falar italiano, dificilmente seria titular, porque é um estilo de jogo muito táctico, onde é precisa muita comunicação e falar muito. E pronto, foi isso. Rapidamente me agarrei ao italiano, comecei a fazer tudo e mais alguma coisa para aprender. Desde filmes em italiano com as legendas em inglês, até ir ao cinema ver filmes em italiano, de tudo um pouco. A verdade é quando ele entendeu que já estava preparado, meteu-me a titular. A partir daí, joguei sempre.

CA – Estiveste à experiência na Juventus, mas na pré-época tiveste uma grave lesão que te impediu de assinar pelo clube. Sentes que essa foi a grande “frustração” da tua carreira? Tens pena que isso não tenha acontecido? Sentes-te orgulhoso depois de tudo o que conseguiste a partir daí?

GB – Sim, é óbvio que trabalhei muito e lutei muito. Consegui ir à seleção A e fiz duas excelentes épocas na Série A. Na Série A as equipas grandes não têm problemas em ir buscar jogadores às equipas pequenas, e assim foi. A Juventus tinha um acordo com o Siena, o treinador da Juventus, na altura o Zaccheroni, queria ver-me ao vivo, então fui com eles na digressão. Fui para o Estados Unidos e Canadá. Em 5 jogos, fiz os 4, no 5º jogo, tive a rotura no tendão de aquiles e pronto, os 4 anos de contratos que estavam certos, foram por água abaixo. São comboios que passam, mas são coisas que acontecem no futebol. Sabia que tinha de recuperar e voltar a jogar. O importante era recuperar bem, foram 9 meses de fisioterapia e de treino intensivo.

CA – Quando estavas em Itália, referiste numa entrevista alguma “mágoa” pela pouca utilização no clube, isso já foi ultrapassado?

GB – Sim, sem dúvida. A mágoa que eu tinha não era com o clube em si, era com as pessoas que estavam a gerir o clube. Continuo a dizer que 4 internacionais jovens, como eu, o Rolando, o Ruben e o Eliseu, não podem sair a custo zero. Um clube como o Belenenses, que sempre formou bons jogadores, não pode deixar sair assim os seus valores. O Ruben para o Benfica; o Rolando para o Porto; eu para o Siena e o Eliseu para o Málaga. A mágoa que eu tenho é mais por ter sentido que não fizeram força para que eu ficasse. Além disso, a força que tinham de fazer nem era assim tanta, eu era um miúdo e só queria jogar.

CA – Em Janeiro de 2014, voltaste. Porquê que decidiste voltar ao Belenenses?

GB – Pela experiência horrível que tive na Roménia. Quando fui para a Roménia, o Cluj, era um clube que tinha jogado a Champions no ano anterior, cheguei lá com umas expectativas e saiu tudo defraudado. O treinador que me levou para lá, ao fim de 4 jornadas foi despedido. Tive 4 treinadores em 6 meses e o clube atravessou uma grave crise financeira. Além disso o meu filho tinha acabado de nascer, tinha um mês. Tudo junto, mais o pouco profissionalismo que se vivia dentro do clube, levaram-me a optar por sair de lá. Era jogador do Parma e disse que não voltaria para o Cluj. O Parma, sabendo das dificuldades, ajudou-me. Tive 3 propostas de clubes portugueses, mas quando falei com o Rui Pedro Soares, a minha cabeça ficou só focada no Belenenses e quis logo vir para aqui.

CA – Como foi voltar numa altura em que o clube estava numa posição delicada na Liga Portuguesa?

GB – Sinceramente, não pensei nisso. Conhecia, como adepto, a equipa, que era a base da que subiu da 2ª Liga. Sabia, por falar com colegas, que era um grupo unido, como uma família. Senti que era o grupo certo e a altura certa para entrar. A qualidade eles tinham, mas estavam a passar por uma má fase, talvez por terem pouca experiência na Primeira Liga. Mas era uma equipa que eu sabia que me enquadraria bem, num grupo coeso, grupo fantástico, que já vinha de há um ano com resultados fantásticos. Acreditei sempre que podíamos dar a volta à situação, e a verdade é que conseguímos. O projecto que o Rui Pedro Soares me apresentou era um projecto sustentado, coeso, e isso fez-me não pensar duas vezes.

CA – Chegaste cá emprestado, o que te fez ficar?

GB – Estive 6 meses emprestado pelo Parma, conseguímos a manutenção. A verdade é que depois, tinha apalavrado com o presidente Rui Pedro Soares, que ia fazer tudo por tudo para ficar emprestado pelo Parma. Ainda tinha mais 2 anos de contrato. Depois, o Parma foi à falência e eu fiquei um jogador livre. Não vou esconder, recebi outras propostas de clubes portugueses, que tinham mais poder económico que o Belenenses, mas o ter conseguido uma manutenção tão difícil; o conhecer o grupo de trabalho; o treinador; o projecto que estava a meio e tudo isso, levou-me a dar a palavra ao Rui Pedro Soares para não se preocupar, que viria para o Belenenses. Não era por ser jogador livre que isso iria mudar. Obviamente que recebi propostas mais vantajosas, mas há alturas na vida em que não é o dinheiro que importa. Eu sei bem disso porque em Itália, recebia bem, era bem pago, mas não estava feliz, não jogava o que queria. Mantive a palavra, voltei para cá, mas só pude jogar à 2ª Jornada, frente ao Nacional, mas apenas por problemas burocráticos.

CA – O menino, saiu do clube e voltou um homem, que agora é capitão. Como te sentes por ser capitão do Belenenses? A responsabilidade é maior? E quais são essas responsabilidades?

GB – É um orgulho enorme. Sempre fui capitão nas camadas jovens, no Belenenses. Quando voltei para o Belenenses a meio da época, já tínhamos os capitães definidos. Grandes capitães, que fizeram muito bem o seu papel, o Duarte Machado, o Fernando Ferreira e o Matt Jones. Na época a seguir, o Duarte sai, o Fernando sai, o treinador entendeu que eu tinha o perfil indicado para ser capitão, juntamente com o Matt Jones e o Bruno China. Foi um orgulho enorme estar entre os 3 capitães. Depois, o ano passado, quando o Matt deixou de jogar e o China também, era eu que estava em campo e era eu que levava a braçadeira. É só uma questão de “alguém tem de a levar”, porque dentro do balneário, nem o Matt, nem o China, deixaram de ser capitães. Este ano, somos 4 capitães e para o campo alguém tem de levar a braçadeira, mas no balneário somos 4. Este grupo é um grupo fácil de se ser capitão. Desde que eu cá estou, tem sido um grupo muito trabalhador, que sabe bem o clube em que está, que sabe bem as responsabilidades que tem por estar no Belenenses. É um grupo fácil e é um grande orgulho para mim ser capitão deste grupo. Embora não me sinta o líder da equipa. Somos todos líderes, cada um à sua maneira.

CA – Sentes-te uma das referências da equipa? Tanto pela longevidade, como por toda a experiência que tens.

GB – Sim, isso sim. Sou um jogador que tem muitos anos de clube, já tive num grande campeonato, já fui internacional A. No meu tempo eram para mim referências jogadores como o Neca; o Tuck; o Wilson; o Filgueira; o Sousa, que é agora treinador dos juniores, eram todos a minha referência. Agora acredito que possa ser uma referência para os jovens, tal como o Carlos Martins, o Tonel, o João Afonso, que são jogadores que desempenham bem esse papel, cada um à sua maneira. Nós os mais velhos, tentamos motivar, mas também precisamos da frescura dos jovens, da sua loucura própria da juventude. Nisso se vê que este plantel foi muito bem formado, tanto a nível técnico, táctico, como a nível humano, também. Sim, sinto-me uma referência para os mais jovens, mas também há muitos jovens neste plantel que são uma “referência” para mim pela forma como se entregam e pelo que dão ao clube todos os dias

CA – As últimas grandes referências enquanto defesas centrais, que aliaram a qualidade, ao amor ao clube, foram o Wilson e o Filgueira. Vês neles um exemplo a seguir? É dessa forma que queres ser visto no Belenenses- ou pelos Belenenses -, daqui a uns anos?

GB – Sim, claro que sim. Acho que tanto o Wilson, como o Filgueira, como o Tuck, o Sousa, o Neca, eram as maiores referências. Eram com quem eu um dia queria treinar. Era apanha-bolas deles e, de uma semana para a outra, estava a treinar ao lado deles. Portanto, é uma coisa fantástica um dia poder ser visto pelos adeptos, como eu os vejo a eles. Tanto o Silas, como Cândido Costa, como o Zé Pedro, são jogadores dos quais eu tentei absorver um bocadinho. São as minhas grandes referências. Considero que as minhas referências são com quem eu partilhei o balneário, os que me ensinaram e com quem eu vivi quotidianamente. Esse leque de jogadores, são as minhas grandes inspirações.

CA – Quem foram as pessoas que mais te marcaram no teu percurso de cruz de cristo ao peito?

GB – Tive algumas, tive algumas. Primeiro o mister Manuel José, que com 16 anos teve a coragem de apostar em mim e me “lançar aos tubarões”, dando-me a responsabilidade de ser titular em alguns jogos. Depois, o falecido José António, que, enquanto director, sempre acreditou em mim, chamou-me sempre à parte, falava comigo, ajudava-me, não me deixava deslumbrar, tudo isso. Depois, a nível de campo, já referi, o Wilson, o Filgueira e o Marco Aurélio. Muito importante o Marco Aurélio. Era uma pessoa fantástica para os jovens, um grande guarda-redes e, na gestão com os jovens, era fantástico. O Sousa, que também olhava como uma referência. O Tuck, que foi daqueles que mais me ajudou com conversas fora do campo. Eu morava em Carnaxide, e não tinha carro na altura, então, ele como também morava lá, ia-me sempre levar e muitas vezes também me ia buscar a casa, e, em todas as viagens, aprendia sempre muito com ele. Percebe muito de futebol, é treinador agora e acho que vai ser um grande treinador no futuro. Já na altura era um treinador dentro de campo. Mais tarde tenho de destacar aquela equipa com o Silas, Zé Pedro, Cândido Costa, Hugo Leal, esses foram os que mais me ajudaram. Era aquela fase em que já se estava a mudar de mentalidade, os mais velhos já brincavam com os mais novos, já deixavam os mais novos integrar as brincadeiras e a vida dos jogadores mais velhos. Ainda hoje falo com todos eles.

CA – Qual é a importância dos adeptos na caminhada do Belenenses nesta nova época? Sentes-te acarinhado e apoiado por eles?

GB – Sim, isso foi uma das razões que me fez voltar. Meti tudo na balança, juntamente com a minha família e vi que tinha de voltar a um clube onde não me precisassem de me dizer o que era lutar por esta camisola, subir a este campo, o que era jogar um jogo com a camisola do Belenenses e também voltar a um sitio onde sabia que ia ser acarinhado. Iria ser tido com uma referência por parte dos adeptos, iriam ver-me não como um miúdo, mas como um jogador já feito, que veio de um campeonato estrangeiro, que foi internacional A. Então, sabia que aqui ia ter todas as condições para ser feliz e ter sucesso.

CA – Vias-te em mais algum clube em Portugal que não o Belenenses?

GB – É difícil. Nunca podemos dizer que não. É difícil dizer que não a um dos 3 grandes. Mas neste momento só penso no Belenenses e não penso sequer noutra coisa. Vimos de uma época fantástica e longa, na qual alcançámos um feito histórico. Um dia irei contar aos meus filhos e netos, que entrei na história do Belenenses. Vivo muito o dia-a-dia, não faço grandes projectos, mas sim, é difícil um dia jogar noutra equipa em Portugal que não o Belenenses. Isto fora os 3 grandes, que nos podem dar profissionalmente outras coisas, como jogar a Liga dos Campeões e tudo mais.

CA – O Belenenses é o teu clube de coração?

GB – Sim, é. Desde os 6 anos que jogo aqui e é difícil ser adepto de outro clube. Mesmo lá fora nunca me preocupei muito com quem ganhava o campeonato,  preocupava-me sim, com o Belenenses e em saber como estava a situação. Por isso sim, este é o meu clube.

CA – Acabar aqui a carreira, é uma possibilidade?

GB – Descartado nunca está. O Belenenses é um clube grande, que tem de se manter neste nível, e nós jogadores temos de ter a responsabilidade de manter o clube neste nível. Manter o clube na Liga, sem altos e baixos. Este ano alcançámos um feito histórico, que tem de ser consolidado com uma boa prestação na Liga. Portanto, sendo o Belenenses um clube histórico, que agora está a atravessar uma boa fase financeira, graças ao fantástico trabalho desta SAD nessa vertente, não vejo porquê de estar a pensar ir para outro lado, quando aqui tenho todas as condições para ser feliz, para fazer o que mais gosto, sem grandes sobressaltos. Como tal, é uma possibilidade.

Europa:

CA – Sá Pinto já está no clube há 3 meses, notas diferenças relativas aos outros treinadores? Sentes que a equipa já se adaptou ao seu método? Quais são as maiores diferenças/mudanças.

GB – Sim, cada treinador tem o seu método, a sua maneira de ver o jogo, tem a sua maneira de trabalhar. Este ano tivemos alguns jogadores novos, mas foi fácil. O mister trabalha como os jogadores gostam: com intensidade, com bola, tem muito bons métodos, tem uma equipa técnica à sua volta e foi fácil ambientarmo-nos aos seus métodos. Depois, tem uma coisa que este clube precisa, que é: ser um treinador ambicioso. Quer sempre ganhar, seja um amigável, ou um jogo da Liga Europa. Isso para nós é bom. Sabe o que é preciso para se ganhar e sabe o que não podemos fazer para evitar que corra mal. Os resultados estão à vista. Fizemos um excelente campanha na Europa, no campeonato ainda não ganhámos, mas também não perdemos e temos jogado contra adversários com outros objectivos. Tudo somado, acho que está a ser muito positiva esta adaptação ao treinador e do treinador ao grupo.

CA – Como sentiste o apuramento para a Liga Europa? Sempre acreditaste? Quando é que viste que era mesmo possível?

GB – Tive uma conversa com o Presidente a seguir à manutenção. A seguir a termos conseguido a manutenção, três ou quatro dias depois, tive uma reunião com ele, onde lhe dei a palavra de que ficaria no Belenenses, e disse-lhe que já tinha vivido épocas sofridas, onde os jogadores ganham outra bagagem, ganham mais entrosamento entre eles, sabem o que é sofrer, e isso só traz coisas boas. Foi aí que lhe disse que íamos à Europa. E pronto, felizmente consegui acertar no prognóstico e todos conseguímos esse apuramento para a Europa, que foi uma coisa muito boa.

CA – Depois da vitória frente ao Gotemburgo, a equipa regressou a Lisboa e deparou-se com um ambiente de festa. Estavam à espera da recepção que tiveram no aeroporto?

GB – Estava e não estava. Os adeptos do Belenenses habituaram-nos, como no final da Taça com o Sporting, como no jogo frente ao Bayern, a grandes ambientes. Eu sabia que passar ao Play-Off era algo fantástico. Sabia também que os adeptos que não foram connosco à Suécia, tinham ficado a ver o jogo nas Sedes, em casa e sabia que iriamos ter uma boa recepção na chegada a Lisboa. Foi muito bom ver, é para isso que também trabalhamos, para dar alegrias às pessoas que sofrem por fora, algo que é bem mais difícil.Foi também uma enorme alegria para nós ver todas as pessoas à nossa espera, em festa, no aeroporto.

CA – Como descreves o grupo do Belenenses na Liga Europa? Era o que querias? Acreditas na passagem?

GB – Eu vou ser sincero. Fui tomar banho, só vi o grupo já no fim, quando estavam os grupos todos feitos. Não tinha preferência. Tínhamos feito aí uma brincadeira de manhã em que escolhemos um grupo com as equipas mais fortes de todas. Um grupo com: Mónaco, Tottenham e outra equipa que não me lembro, mas foi na brincadeira. Chega a um patamar, como a Liga Europa, onde não há jogos fáceis. E nós, vamos ter de gerir bem, nunca esquecendo que a nossa prioridade é o campeonato. Mas a emoção e a alegria que é jogar um jogo da Liga Europa, vai superar tudo e vamos lutar todos os jogos para pontuar. Óbvio que temos um grupo difícil, com equipas como a Fiorentina e o Basileia, que estão habituadas a estarem sempre numa competição Europeia; o Lech Poznan, uma equipa polaca, que tem adeptos fanáticos. É um grupo difícil, mas, como é a mentalidade do treinador, vamos jogar sempre para ganhar e para conseguir pontuar. Não estou muito preocupado ainda com os jogos da Liga Europa.

CA – Como é o ambiente no balneário? Das entrevistas que fizemos, dizem-nos sempre que o segredo é a união do grupo, concordas? Acrescentas mais alguma coisa?

GB – Acho que têm razão quando dizem isso. Essa foi uma das razões que me levou, há dois anos, a assinar por este clube; saber que este grupo é muito coeso e que se dá muito bem, que se empenha e tudo mais. Esse é mesmo o segredo. Não só sermos unidos dentro e fora, mas também os treinos que são muito competitivos, onde quem não joga, treina sempre como se estivesse a titular e quem é titular, treina sempre como se nunca tivesse tido uma oportunidade. Esse é o segredo do grupo, é a entrega que metemos num treino, é a dificuldade que colocamos no treinador para decidir os que são titulares e depois os que vão para o banco. Não gostava de estar no papel do treinador, porque neste grupo é difícil. Este grupo está cheio de jogadores de qualidade, que trabalham bem e se empenham. O segredo é esse, é estarmos sempre preparados, unidos, caso jogue um ou outro, sabermos sempre o que fazer.

CA – Como foi para ti voltar a jogar nos palcos europeus, ao mais alto nível? O jogo frente ao Altach e o ambiente sentido no estádio, fizeram-te lembrar o dia 4 de Outubro de 2007, quando denfrontámos neste mesmo estádio, o todo poderoso, Bayern de Munique?

GB – Sim, foi uma coisa fantástica, foi um jogo memorável, onde conseguímos algo histórico. Estavam muitos adeptos e foi aquela ansiedade normal antes de um jogo importante. Não foi um jogo muito bem jogado da nossa parte, eles também montaram uma boa estratégia, à espera de fazer o golo de bola parada. Nós estivemos muito unidos, muito coesos, muito comprometidos com aquilo que tínhamos prometido antes do jogo, “sofremos para estar aqui, passámos etapas muito difíceis para estar aqui, não vamos ser eliminados em frente aos nosso adeptos e às nossas famílias”. E foi isso que aconteceu. Conseguímos um empate que deu um apuramento histórico. O jogo se calhar fez-me lembrar o do Bayern Munique, mas este foi mais especial. Na altura ninguém acreditava que o Belenenses podia passar depois da derrota em Munique. Foi mais um jogo de festa, um jogo para agradecer aos jogadores o terem conseguido aquele feito enorme, quando a época anterior corremos o risco de descer de divisão e só nos salvámos na secretaria. Foi muito bom por parte dos adeptos, terem querido agradecer-nos naquele momento, mesmo não acreditando muito que iriamos conseguir virar um 1-0 na Alemanha. Esteve um estádio fantástico, contudo. Nesta eliminatória com o Altach, esteve um ambiente diferente. Os adeptos acreditavam mesmo que iriam estar na Fase de Grupos e nós também. Foi um alívio muito grande termos conseguido este feito histórico.

Pessoal/Futuro:

CA – Sentes que te falta atingir alguma coisa enquanto jogador?

GB – Sim, falta muito. Se não me faltasse, amanhã não vinha treinar. Ainda me falta muito, tanto a nível individual, como colectivo. Quero muita coisa ainda, sempre sabendo que tenho de trabalhar todos os dias mais.

CA – Seleção nacional, é um objectivo voltar? Vês isso perto?

GB – Claro que sim. Acho que todos os jogadores deviam ter essa ambição. Eu já tive a felicidade de lá ter estado, mas não é por isso que não ambiciono voltar. É óbvio que quero lá estar. Tudo depende do que o Belenenses colectivamente fizer. Tanto eu, como se puder ajudar os meus colegas a lá estar, é quase como se tivesse lá eu também. Ainda hoje o Fábio Sturgeon foi chamado aos sub-21, é um orgulho enorme para nós, porque o miúdo tem feito um excelente trabalho. O selecionador Fernando Santos, já mostrou que pode chamar jogadores, que ninguém está fora da lista. É óbvio que tem uma base de jogadores, jogadores em quem confia mais, isso é algo que não podemos ignorar. Mas esse sonho tenho sempre, e isso ninguém me irá tirar até perto do final. É óbvio que é difícil, mas vou continuar a trabalhar.

CA – Que treinadores tiveram até agora mais impacto na tua carreira?

GB – Acho que consegui absorver um pouquinho de todos. Sou uma pessoa muito observadora e sou muito interessado pelo jogo, pelo futebol em si, tanto pelas questões tácticas como por tudo. Talvez pelo inicio da minha carreira, tenha sido o Jorge Jesus, que estava muito à frente no nível táctico, acima de todos os que tinha apanhado até então. Deu-me uma base, mesmo jogando pouco, que foi a minha base quando fui para Itália. Dessa forma não tive dificuldade nenhuma em entrar no jogo e em perceber o jogo lá. Tenho a certeza que se não tivesse apanhado o Jorge Jesus e aprendido os seus métodos, chegaria a Itália e teria muitas dificuldades. O Giampaolo, defendia de forma parecida com o Jorge Jesus. O Manuel José que me lançou, também é importante referir. Em Itália, o Giampaolo, foi o treinador que apostou em mim na Série A. Tenho também o António Conte, com quem subi à Série A. Um treinador muito parecido, muito parecido mesmo, ao mister Sá Pinto. Tanto a nível de métodos de treino, como a nível de ambição, a nível de querer sempre mais, são mesmo muito parecidos. Dou-me muito bem com esse tipo de treinadores. E por fim, o Carlos Queiroz, que me chamou à seleção principal.

CA – Depois de tanto tempo fixado como Central, ainda te sentes confortável a actuar na esquerda?

GB – Sinto. O ano passado fiz algumas vezes, nas camadas jovens fazia muitas vezes, mas sinto. É óbvio que tenho características diferentes de um lateral, falando na esquerda, como Filipe Ferreira, ou o Geraldes, que são laterais muito ofensivos, mas se calhar dou mais segurança defensiva ali, porque não avanço tanto. Mas sinto que cumpro ali, mesmo não sendo a minha posição.

CA – Qual foi o melhor adversário(jogador) que enfrentaste? Aquele que te deixou mais com a cabeça em água.

GB – Já tive a felicidade de jogar contra alguns. Joguei contra o Ibrahimovic; o Adriano, que na altura estava na Roma, era impossível sequer encostares-te a ele, tinhas de tentar adivinhar o que ia fazer; o Alexandre Pato na altura em que voava. Aqui em Portugal, o Jackson Martínez. E há um grande ponta de lança que tínhamos em Portugal o ano passado, que senti que, pelos movimentos que faz, era um jogador de qualidade, o Kléber, que jogou o ano passado no Estoril. Em Portugal ainda temos o Slimani, e vários outros jogadores. O campeonato português está muito forte a nível de jogadores que podem desequilibrar. Mas para escolher um, escolho Ibrahimovic.

CA – O plantel do Belenenses é maioritariamente português (não todo pela entrada do Kuca e do Luís Leal), vês isso como uma demonstração do que de bom se produz em Portugal em termos de talento futebolístico?

GB – Sim, sim. É uma prova que os nosso clubes formam bem, que temos excelentes jogadores nas segundas divisões que estão só à espera de uma oportunidade para conseguirem mostrar o seu valor. O projecto do Belenenses é esse, de valorizar o produto português, o jogador português, e tem corrido bem até agora. Isto não quer dizer que os estrangeiros não tenham valor, ou que não serão bem-vindos. Todo o  jogador com qualidade é bem-vindo. A única diferença é para o treinador, que falando português pode falar como ele quiser, até calão que eles entendem! Com estrangeiros, é mais difícil. Penso que é essa a única diferença. Eu também já estive lá fora e não gosto de falar no “estrangeiro” e no “português”. É bom, e gosto de ver o produto português a ser valorizado, mas isso não quer dizer que os estrangeiros não tenham qualidade. Óbvio que se for para dar mais qualidade ao grupo, o estrangeiro é sempre bem-vindo. Na altura iam-se buscar estrangeiros por buscar, quando se calhar havia jogadores portugueses nas camadas jovens e nas segundas divisões e não tinham oportunidades, acho que é por aí que as pessoas falam nisso.

CA – Desde sempre que se associou a classe futebolística aos esquerdinos? Como és esquerdino, concordoas com isso?

GB – (risos). Não sei, não sei. É verdade, sempre houve essa referência, mas se calhar é por haver menos. Há jogadores que jogam com o pé direito que têm muita classe. Se calhar é porque os esquerdinos são mais raros. Não é um dado adquirido.

CA – Tu não és um central que faça muitos golos, no entanto, este ano já marcaste. Achas que pode ser o teu ano de “goleador”?

GB – Sim, é verdade que não faço muitos golos. Era uma coisa que, para mim mesmo, disse que tinha de melhorar. O aspecto ofensivo, os cantos, os livres laterais. É uma coisa que este ano temos trabalhado muito. É importante o grupo estar concentrado e treinar como se fosse jogar para depois tudo sair bem nos jogos. Já fiz um golo, já podia ter feito outro com o Altach em que apareci bem, mas não finalizei É um dos aspectos do meu jogo que tenho de melhorar.

CA – Na tua opinião, o nível do campeonato é dos mais altos de sempre? Vês os “pequenos” cada vez mais capazes de ombrear com os “grandes”?

GB – É verdade. Hoje em dia não há facilidades, não há pontos adquiridos no papel. Podemos ver este ano: o Arouca ganhou ao Benfica e o Tondela apertou o Sporting até ao último minuto. Não há equipas fáceis, vamos ter de trabalhar muito para conseguir a manutenção o mais rápido possível.

CA – Sabemos que dás alguma importânca às redes sociais, és tu que geres as tuas páginas e tens muitos seguidores. Qual é a preponderância que as redes sociais têm no mundo do futebol?

GB – É uma maneira de estarmos mais perto dos adeptos, de transmitirmos o nosso dia-a-dia e um pouco como vivemos fora do clube e fora do futebol. É um pouco para as pessoas perceberem como é o Gonçalo Brandão fora do clube. É uma coisa que agora se vê muito, que são as páginas pessoais e as páginas oficiais. E pronto, é se calhar um espaço que agora se usa para convivermos mais com os adeptos.

CA – Que importância tem a família no teu sucesso?

GB – A família é a base. Onde eu me refugio quando as coisas não estão bem, mas são os primeiros com quem quero partilhar as coisas boas. São um lar, a família é para mim a coisa mais importante. A todos os níveis. É a coisa virá sempre em primeiro lugar.

Perguntas rápidas:

CA – O Estádio do Restelo, é o mais bonito do mundo?

GB – É, sem dúvida alguma! Com esta vista…

CA – Ainda achas que “a cruz ao peito, impõe respeito”?

GB – Sempre!

CA – Melhor golo?

GB – Aquele ao Porto.

CA – Ponto forte?

GB – Pé esquerdo.

CA – Ponto fraco?

GB – Pé direito! (risos)

CA – Melhor época com o nosso emblema?

GB – A época passada.

CA – O teu hobbie favorito?

GB – Brincar com o meu filho.

CA – Vês mais algum desporto sem ser futebol?

GB – Vejo NFL.

CA – Sabes algum cântico do Belenenses?

GB – Sei! Sei muitos!

CA – Deslocação na qual sentiram mais apoio?

GB – Amoreira, Estoril.

CA – Conta-nos um episódio engraçado da tua estadia no Belenenses.

GB – São muitos anos! 18 anos aqui… O jogador com quem eu me ri mais, em toda a minha estadia no Belenenses, foi sem dúvida, o Cândido Costa.

CA – Quem é o teu ídolo?

GB – Gosto muito do Ray Lewis. Um defesa da NFL, inspiro-me muito nele.

CA – O teu filho é sócio do Belenenses?

GB – Não, mas a culpa não é minha. (risos)

CA – E tu, és?

GB – Eu era. Agora não sei se sou. Mas vou voltar a ser.

CA – Como é que foi para ti teres recebido os prémios “Coração Azul” e “Jogador do Ano”; atribuído pelos leitores da Comunidade Azul?

GB – Foi uma valorização pelo meu trabalho. Sempre com a equipa por trás e com a boa campanha a nível colectivo. Mas foi um orgulho enorme ter recebido esse prémio.

CA – Por fim, queremos saber: lês a Comunidade Azul?

GB – Sim!

CA – Queríamos-te agradecer pelo tempo que perdeste e pela simpatia que demonstraste, será que para acabar podes dar uma palavrinha aos nosso adeptos?

GB – Agradecer em primeiro lugar, porque têm sido fantásticos. Sei que às vezes é um bocado difícil, mas mesmo nos momentos em que as coisas corram menos bem, que continuem a apoiar, que este grupo merece, é um grupo fantástico, trabalhador e que vai lutar sempre para levar o nome do Belenenses a grandes conquistas.

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