Capitão Fausto – “O nosso foco continua a ser musical”

Falámos com Tomás Wallenstein e Domingos Coimbra sobre o novo álbum dos Capitão Fausto, “A Invenção do Dia Claro”.

Os Capitão Fausto têm uma das histórias de maior sucesso na música portuguesa dos últimos anos. O percurso da banda tem sido em crescendo, tendo atingido o ponto mais alto com “Capitão Fausto tem os Dias Contados”, álbum considerado por muitos como o melhor do ano e um dos melhores desta década por cá. Para onde ir depois de “Capitão Fausto Têm os Dias Contados”? Era a questão que se impunha, e para vermos essa questão respondida, falámos com dois dos elementos da banda: Tomás Wallenstein (vocalista, guitarrista) e Domingos Coimbra (baixista). Uma conversa que teve como base o novo disco, já lançado, “A Invenção do Dia Claro”.

Relembrar que os Capitão Fausto irão actuar amanhã no Capitólio para apresentar “A Invenção do Dia Claro”, um concerto há muito esgotado. Se não conseguiu bilhete, poderá vê-los num futuro próximo, como no Vodafone Paredes de Coura ou nas Celebrações do 25 de Abril em Oeiras.

Os Capitão Fausto actuam em Oeiras no 25 de Abril

 

 

Como surgiu o nome para o álbum, “A Invenção do Dia Claro”?

DC – O título surgiu numa fase final, já tínhamos as canções feitas e estávamos à procura de algo que fizesse sentido com as músicas, e foi aí que o Tomás sugeriu “A Invenção do Dia Claro”, pois achámos que era uma boa frase aglomeradora e o Tomás tinha encontrado alguns paralelismos entre o álbum e o livro de Almada Negreiros. Não foi o livro, com o mesmo título, que inspirou as músicas e as letras, mas foi sim uma feliz coincidência. Ambos falam de algo que é transversal a qualquer geração: as relações humanas, por isso é normal haver paralelismos entre as obras. Ligámos às herdeiras do Almada Negreiros que trabalham no Ateliêr de Arquitectura, a pedir autorização para utilizarmos o título e aceitaram prontamente, sendo que também ouvem Capitão Fausto no Ateliêr.

Capitão Fausto já editaram “A Invenção do Dia Claro”

 

Gravaram partes do “A Invenção do Dia Claro” no Brasil. Gostaram da viagem? Influenciou o som do álbum?

TW – Adorámos a viagem. Quando começámos a fazer o disco, reunimo-nos com a Red Bull, pois têm sido nossos parceiros e eles sugeriram gravarmos este disco num estúdio deles. Eles têm vários pelo mundo fora, Londres, Tóquio, São Paulo, etc. E nós pensámos “Porque não São Paulo?”. Posto isto, começámos a fazer o disco, sabendo que íamos lá gravar e sendo assim começámos a imaginar as músicas já com a participação de instrumentos brasileiros e integrámos alguma influência do Brasil no álbum, sem deixarmos que a nossa música ficasse descaracterizada.

DC – Só um louco é que não ia adorar a ideia de poder gravar um disco numa cidade como São Paulo. Correu lindamente, e foi uma boa oportunidade para estarmos num ambiente fora do que estamos habituados e conhecer realidades diferentes.

 

Quais as diferenças que encontraram entre o panorama musical do Brasil e Portugal?

TW – Nós temos muitos amigos a viver no Brasil e encontrámos semelhanças entre os dois panoramas, a geração mais nova está muito activa nos dois países e a tentar reinventar-se. Conhecemos pessoas que podiam ser de uma Cuca Monga do Brasil. Mas em geral há uma grande diferença entre os dois países no panorama musical. O Brasil sempre produziu muita música tradicional com a própria cultura e consomem-na, ao contrário do caso português em que só actualmente é que isso tem mudado O que acaba por influenciar a facilidade que têm em tocar uns com os outros. Cá às vezes é um pouco mais rígido, estéril, as colaborações acabam por ser mais pontuais. No Brasil, a música popular é baseada em parte no sentimento de partilha, na junção de várias pessoas a tocar. A visão que têm com a sua música acaba por ajudar também na sua internacionalização. Nós exportamos muito fado, no formato “World Music”, mas o resto da música é consumida quase só cá. Felizmente estamos num ponto em que as pessoas estão mais atentas e evitam mais o portuguesismo de “lá fora é que é bom” e isso é visível não só na música. Portugal está com outra confiança em si próprio.

DC – Quando nós começámos, logo após a crise, sentimos um ânimo nacional pela nossa música, e achamos que há mais confiança sobre o que é feito por cá actualmente.

 

O sucesso de “Capitão Fausto Têm os Dias Contados” pressionou-vos de alguma forma para este novo disco?

TW – Não nos pressionou, e o resultado está à vista, conseguimos finalmente fazer da música a nossa vida, a nossa profissão. Foi esse o grande impacto nas nossas vidas e na banda, pois agora estamos focados a 100% na nossa música. De resto, o sucesso não mudou muito a nossa forma de olhar para a música. Não carregámos o peso do sucesso durante a criação deste novo disco. Nas fases finais do disco é que pensamos “Será que este vai correr tão bem como o anterior?”, mas a verdade é que depois de ter sido feito não há muito mais a fazer. Apenas acreditar no trabalho que fizemos.

 

Acham que são a “Banda/Voz” de uma geração?

DC – É uma interpretação, mas não nos sentimos como uma “Voz” de uma geração. Isso talvez seja uma consequência do crescimento de pessoas que nos ouvem e que se relacionam com aquilo que nos fazemos. Mas se as pessoas chegam ao pé de nós e que nos dizem que se identificam com as nossas músicas, que tomam decisões com as letras do Tomás ou que já ultrapassaram dificuldades ao som da nossa música, é claro que isso nos dá uma grande alegria. Não é necessário rotularem-nos de uma certa maneira. Quando fazemos uma música podemos demorar meses ou anos a trabalhar, e para algumas pessoas esse processo pode traduzir-se em apenas 2 minutos e meio, ouvem uma vez e acabou. Dá-me uma grande alegria saber que esses 2 minutos e meio específicos têm algum tipo influência na vida de alguém e uma duração maior. Daí a sermos uma “Voz” de uma geração … Acho que o facto de sermos parte de uma geração e de falarmos de temas que são contemporâneos

TW – Os títulos não somos nós que damos. Nenhum de nós quer influenciar toda a gente, nós queremos fazer música. Mas temos de pensar qual o exemplo que queremos dar, e isso acarreta alguma responsabilidade.

 

O que vai fazer parte do concerto no Capitólio de amanhã?

TW – Vamos tocar o disco todo e algumas músicas dos anteriores.

DC – Noutros concertos poderemos articular melhor os quatro álbuns já lançados, mas um concerto de apresentação de um disco é para isso mesmo. Vamos celebrar com as pessoas que nos acompanharam ao longo dos anos e é isso que vai acontecer.

 

Qual o local onde mais gostariam de tocar?

DC – Nas Berlengas, iríamos ter de certeza muitos pássaros (risos).

TW – Como gravámos no Brasil, queremos muito ir tocar lá ao vivo.

 

Sabem identificar o que justifica o vosso sucesso?

DC – Não percebo bem as razões do nosso sucesso, para ser sincero. Eu gosto que isso nos fuja do controlo, porque se soubéssemos provavelmente insistiríamos numa fórmula e íamos repetir-nos. Preferimos que seja uma incógnita em relação aquilo que fazermos. A subjectividade torna as coisas mais interessantes. Dá-me pica a ideia de nos continuarmos a reinventar, e que passado estes anos todos o nosso foco continua a ser apenas musical. Há muitas bandas que gosto em que isso não acontece. Para mim é um bom sinal o facto de que quando acabamos um disco, começarmos logo a pensar no que fazer a seguir. O facto de não perdermos esse foco poderá ser uma razão para o nosso sucesso.

 

O que acabou por influenciar o processo criativo deste disco?

TW – Deixamo-nos influenciar um pouco por tudo, seja pela positiva ou negativa. Pela vivência. A “Sempre Bem”, por exemplo, surgiu de um momento divertido com o Francisco a tocar umas notas no piano que nos fazia lembrar de uma personagem que conhecemos num concerto na Madeira. Gravámos e depois fomos jantar, sem ouvir a gravação. E quando fomos ouvir a gravação, percebemos que, apesar de termos estado a brincar, havia algo ali para trabalhar. Mais do que um livro ou um filme, a nossa disposição foi, neste caso, a nossa maior influência.

 

Deixaram alguma música de fora do álbum?

TW – Deixámos uma música de fora, a nona. Tinha coisas interessantes, mas tomámos a decisão de não a incluir no álbum.

 

Tal como em “Capitão Fausto Têm os Dias Contados”, este novo disco tem exactamente 8 faixas. Impõem esse limite?

DC – Eu não me importo que um disco seja uma experiência curta. Acho que para nós interessante que um álbum passe por diversos momentos e não tenha que ser longo por isso, o que acaba por apelar a nossa capacidade de síntese.

 

Quais os planos para o futuro da banda?

TW – Depois dos concertos de apresentação, iremos ter uma digressão de teatros. Vamos tocar em festivais no Verão, e após isso voltamos a ter outra digressão em teatros. No meio disto, já estamos a pensar no próximo disco e temos outro trabalho de composição, do qual ainda não vamos falar muito, mas que será a nossa próxima prioridade.