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Steven Wilson na Sala Tejo – Música para quem quer ouvir e compreender

Steven Wilson retomou a sua digressão de apresentação do seu mais recente álbum a solo, “To The Bone” e iniciou o ano da grande roda de concertos que irão acontecer em Portugal nos próximos meses. Com um espectáculo visual abismal e com um cuidado sonoro a roçar a perfeição, Steven Wilson teve o público sempre na sua mão.

O relógio marcava as 21h em ponto quando estávamos a entrar na Sala Tejo, e ainda bem que nos apressámos, pois o espectáculo de Steven Wilson defendeu a pontualidade britânica (não é de estranhar sendo ele próprio britânico). Falamos em espectáculo com razão. Steven Wilson é um músico perfeccionista e com um cuidado total não só na sua música, mas também na sua apresentação. Por isso, o espectáculo iniciou-se com um vídeo projectado que nos faz pensar sobre os significados e interpretações diferentes que muitos podem ter em relação a uma simples imagem.

Começando a viagem com “Nowhere Now” e “Pariah” do seu último álbum “To The Bone” sentia-se bastante a diferença musical entre estas músicas mais recentes e o seu trabalho nos Porcupine Tree. Com uma plateia bem composta (mas não cheia), Steven Wilson apostou na vertente visual para fazer sobressair as músicas de “To The Bone” e isso revelou-se principalmente na bonita “Pariah”, em que Wilson divide as tarefas vocais com Ninet Tayeb. Como Ninet não estava presente, a sua imagem foi projectada numa rede à frente do palco que deu a sensação de estarmos perante um holograma de Ninet, acompanhada pela banda enquanto cantava.

Com um público sempre muito respeitador do artista e das suas criações, “Home Invasion” e “Regret #9” foram recebidas com muito headbanging e foi quase sempre assim durante a totalidade do concerto. Uma dicotomia aparente entre momentos de maior acalmia sonora em faixas como “Pariah” contrastada com momentos progressivos e recheados de riffs eléctricos como em “Home Invasion/Regret #9”.

Apesar do seu trabalho a solo ser sempre bem recebido pelo público e crítica, é a música dos Porcupine Tree que ainda está gravada na memória de muitos e por isso Wilson não podia não passar por essa discografia. A sua primeira incursão deu-se com “The Creator Has a Mastertape” e foi certamente um momento de gáudio para os amantes do rock progressivo.

Antes de se atirar a “The Same Asylum as Before”, Wilson dedicou uns largos minutos a uma dissecação sobre o porquê de já não ouvirmos guitarra eléctrica nas rádios.
Depois de ter iniciado a sua palestra sobre o tema, o músico britânico deu ao público dois motivos para tal acontecer: 1) O rock e a música poderão ter evoluído para outros prados. 2) Os vídeos que povoam a internet e o YouTube sobre guitarra eléctrica não transmitem a mensagem correcta sobre o poder da guitarra eléctrica aos mais novos. Wilson acredita que é o segundo ponto o responsável pelo desaparecimento da guitarra eléctrica e justifica-o com o facto de que muitos desses vídeos mostram indivídiuos a tocar notas o mais rapidamente possível, dando mais significado à quantidade de notas tocadas invés da qualidade da música originada. Posto isto, Wilson decidiu combater esse “flagelo” fazendo aquilo que para ele é a maior arma de ataque da guitarra eléctrica: tocar solos sem olhar para o instrumento, tal como Jimmy Page ou Jimi Hendrix faziam. Wilson fê-lo e arrancou uma grande salva de palmas de um público já rendido ao artista.

A segunda parte do set trouxe-nos mais duas covers de Porcupine Tree (“Lazarus” e “Sleep Together”), rodeada por outras faixas da carreira a solo de Wilson como a faixa dançável (disco dance à lá Abba, segundo o próprio) “Permanating” ou “Song of I”, que cheira a Massive Attack e que teve direito a uma das melhores utilizações da rede e do projector montados à frente do palco.

Na entrada do encore, Wilson decide entrar no catálogo musical de outro dos seus projectos. Blackfield, a banda formada por Wilson e o israelita Aviv Geffen, foi o projecto escolhido para ser revisitado com a música que até deu nome à banda. Momento intimista com Steven Wilson sozinho com a guitarra acústica no meio do palco. De seguida, o músico quis homenagear Prince, que é, para Wilson, uma das pessoas mais talentosas a ter pisado este planeta. “Sign “☮” the Times” foi a escolhida.

Para finalizar, Steven Wilson guardou duas músicas “melancólicas e depressivas” tal como o próprio mencionou, fazendo com que a plateia soltasse um ligeiro riso e cantasse o refrão de “Sound of Muzak”, e que depois se embrenhasse emocionalmente no som e imagens de “The Raven That Refused to Sing”.

Três horas depois do início do espectáculo saímos da Sala Tejo com uma certeza inabalável. O rock e a guitarra eléctrica podem ter desaparecido nos últimos anos da cultura pop, mas enquanto pessoas como o Steven Wilson estiverem por cá, o rock continuará vivo e de muito boa saúde. De Steven Wilson apenas podemos esperar que ele continue a fazer o que tem feito até aqui: arte.

SETLIST

Set 1:

Nowhere Now
Pariah
Home Invasion
Regret #9
The Creator Has a Mastertape
Refuge
The Same Asylum as Before
Ancestral

Set 2:

No Twilight Within the Courts of the Sun
Index
Permanating
Song of I
Lazarus
Detonation
Song of Unborn
Vermillioncore
Sleep Together

Encore:

Blackfield
Sign “☮” the Times
The Sound of Muzak
The Raven That Refused to Sing

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