O Cinema, e o seu visionamento, foi desde sempre um fenómeno social, um prodígio dependente do movimento exterior num processo isócrono ao ritmo interior. Dentro de nós (imaginação e sonho) tudo é movimento, associado a um profundo e íntimo desejo de produzir e libertar essa afluência emocional e visual ao encontro da catarse. No fundo pretendemos libertar-nos dos limites físicos da nossa condição material, apresentando-se o Cinema como o método de uma outra forma de existir, de ver sonhos, de conhecer mundos interiores e viajar para os exteriores.
A vida é um género de orquestra de formas e ritmos, de história e metahistória, tendo o espetador a grande tela para conciliar (ou até desassossegar) aquilo que consensualmente considera garantido, autêntico ou com uma estranha convicção de obrigatoriedade. Este ritmo cinemático, que apenas se cria se o vemos, fornece uma visão abrangente do que são os múltiplos mundos dos nossos autores cinematográficos e, em última instância, vão respondendo a Bazin (que impôs grandeza dos autores cinéfilos) sobre aquilo que será cinema.
Ao absorver a atenção do espetador o filme substitui o seu ritmo privado, abraçando-o e à sua velocidade, entrando em cada um e dando vida à obra que sai da tela diretamente para as discussões, especulações e até à crítica. Tem sido função da “Seleção Caminhos” em particular, e do nosso festival em geral, divulgar o melhor do que é produzido em Portugal, dando voz e imagem a todos os que alimentam a chama da criatividade desta arte.
A condição de programador dos Caminhos, chamamos condição por envolver um contexto e noção de uma conjetura atual constante, implica o sobrepor da razão geral à comoção individual, da conceção ampla ao gosto pessoal. O importante é levar o espetador à sala, apelar ao seu gosto individual que – segundo Bénard da Costa – tem de ser instruído por uma pedagogia cinematográfica, por ganho de prazer e consciência artística. Para nós resta-nos o gosto de mostrar e fazer gostar, não sendo esses sentimentos menores!
Programar é um dos passos finais desta “mise-en-scène”, onde se vê tudo e se mostra parte de acordo com quem vai ver. Nesta XXIV Edição do festival Caminhos do Cinema Português, continuamos a acreditar que os criadores cinematográficos devem ser sempre equiparados aos autores de todas as outras artes já historicamente estabelecidas e por isso tratados com o mesmo cuidado e consideração. Seja qual for o seu formato, género, localidade ou até suporte financeiro, seremos sempre um catálogo vivo das principais manifestações audiovisuais que marcaram o ano desde a nossa última edição.
Os Caminhos do Cinema Português defendem, tal como Peter Von Bah, que a projeção tem de ser “a” projeção, um acontecimento que o espetador se lembre “talvez toda a vida”, reservando a nossa equipa os melhores espaços e as melhores telas para esta secção competitiva que visa enaltecer, reconhecer e premiar todos os que produzem cinema em Portugal.
Desta forma, a “Seleção Caminhos” desta edição prosseguirá a dar o merecido destaque ao conjunto de animações, ficções e documentários nacionais (autonomamente da sua duração), naquela que por nós é considerada uma das edições mais ricas de sempre. É a possibilidade de o nosso espetador assíduo, e daquele que pela primeira vez nos conhecerá, continuar a aprender e capturar o significado desta linguagem universal cuja gramática se apresenta – apesar de por vezes complexa – a que mais é transversal entre o real e o ficcionado.
Desde os apelos ao que ocorre no país e no mundo, ao recordar do que sucedeu e até ao imaginar o que nunca aconteceu, esta é a oportunidade de em sala vermos sonhos dos nossos artistas, de olhos abertos e ouvidos atentos, com grande imagem, grande som e a possibilidade de conhecer in loco os principais intervenientes desta manifestação (e manifesto) pelas artes cinematográficas.
Segue a lista das obras presentes na “Selecção Caminhos” da XXIV Edição dos Caminhos, num dos anos com mais inscrições e horas de visionamento para analisar e selecionar de sempre. E agora, citando a programadora Iris Barry, vamos ver filmes!