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Massive Attack em Lisboa – Um discurso musical e político com olhos no futuro

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Na segunda-feira passada os Massive Attack passaram pelo Campo Pequeno para a primeira parte da sua passagem por Lisboa na digressão que celebra os 21 anos desde a edição do mítico álbum “Mezzanine XXI”. Saiba como correu o primeiro concerto da banda britânica.

A fase da adolescência é uma fase importante para todos os humanos, e é uma fase que marca, para além das mudanças físicas e químicas do corpo de cada um, o descobrimento de quem somos, do que gostamos e do que é que queremos ser. Este início poderá não ter nada a ver com os Massive Attack. Mas tem.

“Mezzanine” é daqueles álbuns que marcam. Há um antes e um depois de “Mezzanine”. Não só para a extensa carreira dos Massive Attack, mas fundamentalmente para quem veio depois, para quem se deixou influenciar por aqueles 63 minutos intensos e hipnotizantes. Bandas como os Gorillaz, The XX, Radiohead, Air ou UNKLE são apenas alguns exemplos dos vários nomes passíveis de serem enumerados.

E se o álbum teve essa importância para tantas bandas, é óbvio que também teve impacto junto do público em geral. Por isso não foi de estranhar ver um Campo Pequeno completamente esgotado (algo que também se iria repetir no dia seguinte) para receber a banda de Bristol. Também não seria de estranhar que “Mezzanine” terá tido uma importância significativa na fase da adolescência entre muitos daqueles milhares presentes no recinto.

Por isso o concerto poderia revestir-se de nostalgia perante os espectadores sedentos pelo espectáculo. E se é verdade que ouvimos as músicas que tão bem conhecemos desde 1998 (e outras covers ainda mais antigas), a mensagem que os Massive Attack tentaram passar nos 90 minutos que estiveram em palco era a de que devemos deixar o passado lá atrás e concentrar atenções no futuro e como podemos fazer melhor daqui para a frente.

Para quem já viu Massive Attack ao vivo, sabe da vertente crítica que a banda tenta passar através do uso de imagens fortes, contrapondo com a música que se vai ouvindo em palco. Nesta segunda-feira isso não foi excepção. Por diversas vezes o público era confrontado com quatro ideias principais do espectáculo: largar o passado, largar as distracções, pensar no futuro, fazer melhor.

Quem queria ouvir só a “Teardrop” ou a “Angel” para seu apanágio, não podia ser mais enganado. Naqueles 90 minutos, 3D e Daddy G iam gritar o mais alto possível para acordarmos. A música está lá, mas não é para ouvi-la desligado do contexto ou ligado às câmaras dos nossos smartphones.

As imagens ao longo do concerto mostravam-nos ídolos que já cá não estão (Kurt Cobain, Elvis Presley), outros que são engolidos por comportamentos impróprios por parte deles ou de outros (Britney Spears), símbolos do consumismo e do capitalismo, o poder político (com Trump e Putin em grande destaque), e da guerra.

Se as maiores reacções audíveis foram às imagens de Cobain e Trump (um adorado, outro odiado), as imagens que terão sido certamente mais impactantes são as da guerra. Ver uma família a descobrir um ente querido sem vida nos destroços de um ataque mortal não é para entretenimento das massas. São imagens que têm como intuito fazer com que algo mude, e que este tipo de situações não aconteça mais vez nenhuma.

Em relação ao ponto de vista musical, a banda esteve irrepreensível. Apresentar o “Mezzanine” por completo, intercalado com algumas covers de músicas que terão sido importantes para a criação do álbum poderá não ter sido a melhor ideia para a coesão do espectáculo, pois algumas músicas parecem distantes do teor de “Mezzanine”, como “I Found a Reason” dos Velvet Underground.

Para esta digressão, os Massive Attack trouxeram dois dos intérpretes mais relevantes no catálogo da banda: Elizabeth Fraser e Horace Andy. E foi precisamente nos instantes em que cada uma das vozes estava em palco que se viveram os momentos mais altos da noite. “Teardrop” com Elizabeth e “Angel” com Horace já eram esperados figurar nessa lista, mas juntou-se ainda a maravilhosa “Group Four” com Elizabeth e a sempre poderosa “Inertia Creeps”.

Desde 1998 (o ano em que “Mezzanine” foi editado) que os Massive Attack lançaram apenas mais dois discos (100th Window (2003), Heligoland (2010)), no entanto a sua marca continua bem vincada na música que nos chega na actualidade. A prova mais importante para uma obra é a prova do tempo. Duas datas no Campo Pequeno completamente esgotadas chegam para confirmar a importância de “Mezzanine” e da banda na actualidade? Eu creio que sim.

Os Massive Attack sabem bem o que são. Sabem bem do que gostam. Sabem bem o que querem ser. Quando chegaram a este mundo, eram novidade. Precipitaram uma nova “Invasão Britânica” (mais concretamente da zona de Bristol) no mundo da música com nomes como Portishead ou Tricky. Agora, apesar de terem vindo com o pretexto de reviver memórias passadas, querem é olhar para o futuro e fazer melhor.

No final, todos os espectadores saíram do recinto do Campo Pequeno, com fome de mais (concerto de 90 minutos sem encore sabe a pouco) relembrando os momentos íntimos e poderosos que viveram naquela noite. Robert “3D” Del Naja e Grant “Daddy G” Marshall também saíramm do recinto, acreditando que a sua mensagem passou e que todos lutaremos um pouco mais pelos nossos direitos. Que todos seremos melhores no futuro. Será que seremos?

 

SETLIST 

I Found a Reason
Risingson
10:15 Saturday Night
Man Next Door (ft Horace Andy)
Black Milk (ft Elizabeth Fraser)
Mezzanine
Bela Lugosi’s Dead
Exchange
See a Man’s Face (ft Horace Andy)
Dissolved Girl
Where Have All The Flowers Gone? (ft Elizabeth Fraser)
Inertia Creeps
Rockwrok
Angel (ft Horace Andy)
Teardrop (ft Elizabeth Fraser)
Levels/Group Four (ft Elizabeth Fraser)

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