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Marco Rodrigues em entrevista à CA Notícias

O fadista Marco Rodrigues lançou no ano passado o seu novo álbum “Copo Meio Cheio”. O álbum sucessor ao seu trabalho anterior “Fados do Fado”, apresentou um novo take ao seu estilo, particularmente pela presença de nomes conhecidos da atual música portuguesa, tais como Boss AC, Diogo Piçarra, Agir, Carlão, Capicua, Luisa Sobral, Marisa Liz, Tiago Pais Dias (Amor Electro) entre outros.

Em antevisão ao concerto que irá decorrer a 21 de abril na Casa da Música, conversamos um pouco com o cantor de modo a não só sabermos o tipo de sucesso do seu “Copo Meio Cheio”, mas também a sua evolução pessoal e profissional de 2006 até hoje.

Marco Rodrigues falou-nos dos momentos que serviram de inspiração para “Copo Meio Cheio”

CA Notícias: Fala-me acerca de “Copo Meio Cheio”. Desde a última entrevista que deste ao CA que tipo de feedback tens recebido?

Marco Rodrigues: Tenho-me achado cada vez mais contente e este “copo” realmente transborda porque a cada concerto que vou tendo, e felizmente desde essa altura já tive alguns concertos por várias zonas do país, deixa-me muito contente a forma como as pessoas têm recebido este espetáculo.

Este disco trouxe-me sem dúvida um dinamismo diferente ao meu espetáculo. Para além do espetáculo de fado, as pessoas conseguem assistir também a esta nova vertente de músicas compostas por pessoas que nada têm a ver com este ambiente. Se batem palmas, cantam, dançam, levantam-se e esse dinamismo num concerto de fado acho que é super interessante.

E é o que eu tenho percebido durante este tempo nos concertos que tenho feito com este “Copo Meio Cheio”. De norte a sul do país sinto que trouxe realmente aos meus concertos uma dinâmica diferente e deixa-me muito contente perceber que as pessoas saem de um concerto a pensarem que também fizeram parte dele. E é essa a intenção, é não saírem de lá a pensarem que foram só público, mas também que fizeram parte do espetáculo.

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CA: O teu álbum contou com a composição e escrita de nomes como Boss AC, Capicua, Carlão, Diogo Piçarra, Luísa Sobral, entre outros. Acreditas que este fator vem trazer mais “diversidade” musical a este trabalho e por conseguinte atraiu um público “novo”?

Marco Rodrigues: Sim, sem dúvida que eu notei um público mais jovem a começar a estar também mais desperto ao meu trabalho. Mas eu acho que o próprio fado tem feito isso. Eu acho que o fado em si tem feito essa renovação de geração. Pode agradar também aos ouvidos de gerações mais novas este tipo de sonoridade com outras influências também às vezes menos tradicionalistas.

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Mas eu acho que o principal trabalho na conquista de uma nova geração foi feita pelo próprio fado, sem dúvida. Pelos próprios novos intérpretes de fado, pela forma como os novos intérpretes têm abordado, a evolução dos próprios músicos, o bom gosto deles. Acho que o fado em si se fez renovar a ele próprio. Ajuda, sem dúvida, poderem haver abordagens menos tradicionais para que algumas pessoas que estejam um pouco mais reticentes e que façam um pouco mais de “braço de ferro” por ser uma música um pouco mais densa, mais intimista.

De uma forma geral acho que o próprio fado, os próprios fadistas e os próprios músicos fizeram renovar esta geração. Mais uma vez, acho que pode ajudar de alguma forma a presença de celebridades diferentes, mas acho que o principal trabalho foi feito pelos fadistas, músicos de fado e pela própria música.

CA: Portanto sentes que o fado, de certa forma, está a adaptar-se a uma nova geração. Acreditas então que este estilo musical continua popular?

Marco Rodrigues: Sem dúvida. Aliás, no dia em que o fado deixar de ser uma música tradicional deixa de ser fado. A música está constantemente em mutação; a música é contemporânea e as coisas estão a acontecer. Mas, gostaria de sublinhar isto mais uma vez, acho que o próprio fado e as pessoas desse meio se renovaram e trouxeram um público novo.

Eu canto ainda em casas de fado (embora já não tenha a mesma disponibilidade de antes), neste caso na Adega Machado e eu fiz gestão artística durante muitos anos. Contratei jovens com 16 a 20 anos para poderem cantar fados tradicionais numa casa de fado tradicional. Eles estão apaixonados e esta nova geração está a apaixonar-se também por fados tradicionais. Portanto isso só quer dizer que o próprio fado se renovou e conquistou uma série de cantores e intérpretes que se calhar, na minha altura, olhariam para o fado de uma forma um bocado menor e mais antiquada, digamos assim.

CA: Como sentes que a tua relação profissional (e de certa forma pessoal) com o Tiago Machado  tem evoluído, tendo em conta o facto de terem trabalhado juntos em mais que uma ocasião?

Marco Rodrigues: Com o Tiago Machado, a nossa relação pessoal aparece muito antes da profissional. Nós conhecemo-nos numa tournée da Marisa em Londres e eu e ele éramos convidados para participar no concerto. Depois desse concerto criou-se uma amizade gigante que sobreviveu mesmo antes de nós começarmos a trabalhar juntos. A convivência profissional só fez reforçar e acimentar a relação pessoal que nós tínhamos.

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Foto: Universal Music Portugal

O Tiago é uma pessoa que eu admiro imenso a nível profissional, eu sou “fã de carteitinha”, como se costuma dizer, dele. Pelo produtor que ele é, pelo compositor, pelo gosto musical, pela execução, pela forma como ele toca, tudo. E depois, quando se anexa a isso o gosto pessoal enorme pela pessoa e pelos princípios, essas duas coisas são geniais quando nós conseguimos juntar-nos.

Ou estúdio ou em palco, somos dois grandes amigos que convivem diariamente um com o outro, e ainda para mais quando nos conseguimos encontrar a nível profissional e fazermos música da qual as pessoas gostam é tudo maravilhoso.

CA: De entre os temas deste novo álbum qual o teu favorito e porquê?

Marco Rodrigues: É difícil conseguir responder e não é cliché. Eu acho que cada tema tem algo de especial. Sem dúvida que este disco é marcado pelo nascimento do meus filho, pela alegria e pela forma como me sinto preenchido a nível pessoal.

Se calhar destacaria o “Mal Dormido”, o tema que é inteiramente dedicado ao Bernardo. Das coisas mais caricatas que há é quando somos pais, não é? Não queria que falássemos sobre aquele amor incondicional que há entre pai e filho porque já foi muito descrito e muito cantado (e bem feito, atenção!).

Mas eu queria que se falasse sobre aquela parte caricata, a parte mais engraçada do “primeiro dormia muito, agora não durmo nada”. Ainda me lembra de me levantar à noite para ir à casa de banho, dar um pontapé num brinquedo e aleijar-me. As fraldas, a baba, o ranho, o papel na sanita. É um tema que ao vivo funciona muitíssimo bem, as pessoas adoram cantam, levantam-se, batem palmas.

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Agora este disco trouxe-me muitos temas importantíssimos também, além dos outros discos. Claro que “O Tempo” é uma música marcante, irá ser sempre.

Há ainda um outro tema que nos concertos as pessoas adoram que é o “Vapores” escrito pelo Carlão, também com uma história caricata e muito gira. Eu estou a cantar um fado tradicional e a forma como os músicos acompanham é bastante tradicional é só o trio, não há outro instrumento para além da guitarra, da viola e do baixo. E esses temas também num concerto ao vivo fazem vibrar as pessoas, mesmo as gerações mais novas.

Voltando à questão inicial, se eu tivesse que nomear uma música seria um pouco injusto porque há muitas músicas que foram marcantes e têm sido marcantes, porque este disco tem estrada ainda e vai continuar nela durante algum tempo. Mas sem dúvida destaco o “Mal Dormido” pelo contexto e pelo conteúdo.

CA: Que tipo de transformações tens sentido na tua carreira e vida pessoal desde que começaste a tua carreira em 2006 até hoje, ano de 2018?

Marco Rodrigues: Eu aos 25 anos já queria muito ser pai. Sempre foi um grande desejo, não tenho a mínima dúvida que era o maior desejo da minha vida. Não o “ter um filho” mas o “ser pai”. As fraldas, aquelas situações de dormir pouco, de levantar-me e levá-lo e buscá-lo à escola e outras coisas que estão anexadas a alguém que diz que é pai. Eu queria muito isso e acho que essa é sem dúvida a maior direção de vida das pessoas.

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Mas a nível profissional eu acho que mudei-me mais como pessoa e logo isso fez mudar algumas posturas, formas de ser, formas de reagir, entre outras. Mas a grande mudança foi mesmo a nível pessoal. Atenuou uma série de coisas, comecei a relativizar uma série de coisas que dantes não conseguia, comecei a dar mais importância a outras coisas, comecei a ponderar mais algumas coisas que fazia ou dizia.

E eu acho que isso depois transparece na música que tu fazes. Sem dúvida que eu acho que este disco mostra-me mais tranquilo. Houve uma jornalista que aqui há tempos me disse que achava que eu neste disco não dava tanto como intérprete, não fazia tanto como cantor, comparado com os discos anteriores. Acho que passei a servir mais a música do que a servir-me dela. Depois de ser pai acho que passei a servir mais a música e servir a música muitas vezes é só fazer aquilo que é necessário. É só dizeres aquela palavra daquela forma. Tu sabes que és capaz de fazer uma pirotecnia qualquer ali, mas não a faças. Tem muito mais importância que as pessoas percebam a frase de uma forma simples e direta do que perceberem a frase no meio de uma pirotecnia vocal.

Portanto acho que essa foi a grande transformação minha enquanto artista e enquanto intérprete: foi o servir mais a música a partir do momento em que o Bernardo nasceu.

CA: Como reagiste quando soubeste que “O Tempo” foi escolhido para a banda sonora de “A Herdeira”? Estavas à espera que esse tema fosse um hit?

Marco Rodrigues: Sem falsas modéstias: estava! Estava mesmo! É a terceira vez que tenho um tema em novelas. É uma janela gigante que se abre para as pessoas conhecerem a tua música.

E eu acho que até a própria música nas novelas tem sido alterada. Antigamente as músicas estavam ligadas a uma personagem e apareciam só naquela altura em que a personagem aparecia. Hoje em dia as músicas são bandas sonoras das novelas e o que acontece é que eles utilizam a música de uma forma diferente. Muitas vezes estão a aparecer paisagens acompanhadas de uma música da banda sonora. E isso faz com que as pessoas conheçam melhor a tua música. Faz com que as pessoas percebam melhor o ambiente da tua música.

De uma forma geral chega a mais pessoas. Aquelas pessoas que todos os dias assistem à novela. Claro que a dada altura sentem a música como se também lhes pertença um bocadinho, porque é a novela que seguem e a que assistem todas as noites num serão. As músicas como passam de uma forma muito mais contínua

Eu recordo-me de ouvir algumas vezes (embora eu não esteja normalmente em casa na altura em que a novela passa) e das poucas vezes a que assisti percebi que eles passam [as músicas] durante bastante tempo. Metade da música e muitas vezes até a música quase toda. E isso não acontecia antigamente, em que estava quase sempre ligada a uma personagem.

Fiquei muito contente porque as músicas funcionam muito bem quando passam nas novelas e as pessoas reconhecem-nas. Mas ao mesmo tempo também estava um pouco à espera porque depois da música e letra que me chegaram do Diogo, depois do arranjo que o Tiago Machado fez e depois da minha interpretação um pouco mais tradicional (não tão pop como seria normal naquele tipo de composição), acho que estas três coisas em conjunto fizeram a força desta música. E com mais de 4 milhões de visualizações no YouTube, isso quer dizer alguma coisa, não é?

CA: Que projetos futuros tens em curso para este ano de 2018 que gostasses de partilhar?

Marco Rodrigues: Vou partilhar este “Copo Meio Cheio” com toda a gente. Neste ano felizmente temos uma agenda  que se vai enchendo e que já conta com bastantes concertos de norte a sul do país. E eu espero este ano que toda a gente transborde o seu próprio copo e que assista também aos meus concertos, que fiquem felizes, entusiasmados e, como diria o Raúl Solnado “façam o favor de serem felizes”.

CA: Que expectativas tens para o concerto na Casa da Música? Que memórias tens das vezes em que atuaste no Porto?

Marco Rodrigues: A última vez que estive na Casa da Música foi incrível. Estava a apresentar um disco chamado “EntreTanto” e foi muito bom.

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Eu gosto muito do Norte, é sempre algo especial para mim. Eu nasci em Amarante no distrito do Porto e sempre que faço concertos no Porto sinto realmente um carinho e um afeto como se lhes pertencesse um pouco e isso deixa-me muito contente. Fico mesmo muito mimado quando vou ao Porto, eu costumo dizer isto até em concertos. Sinto-me muito mimado de cada vez que vou ao Norte, de uma forma geral. Não só ao Porto, mas ao Minho também, pois também vivi em Arcos de Valdevez durante muitos anos.

Fico sempre muito contente e muito ansioso para chegar o dia e poder apresentar os meus novos trabalhos e poder ver as pessoas a vibrarem e a darem-me todo aquele carinho que eu adoro receber de braços abertos.

Só tenho ainda pena de só ter feito um concerto em Amarante que é a minha cidade. Mas foi incrível o concerto que fiz há dois anos lá. Foi incrível, foi espetacular e deixou-me imensamente feliz. Ainda para mais foi em frente à Igreja de São Gonçalo em Amarante que eu sou mesmo fã desse local.

A uma semana da Casa da Música já sinto aqui uma pequena ansiedade e vai ser, sem dúvida, um concerto especial.

CA: Queres deixar uma mensagem final para os nossos leitores?

Marco Rodrigues: Quero! Nós agora estamos numa campanha de cultura em Portugal que eu acho que é muito importante. Acho que as pessoas continuam a olhar para a cultura de uma forma um bocadinho menor. Ok, nós sabemos que a saúde e a educação são muito importantes, mas na educação as pessoas não se podem esquecer que a educação e a cultura estão intrinsecamente ligadas.

Eu pedia às pessoas para “se mexerem um bocadinho mais”, para assistirem a mais concertos e para não fazermos da música, que é um hobby para quase toda a gente, um hobby de sofá. Ou seja de ficarmos à espera que ela nos chegue.

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Foto: Universal Music Portugal

Nós temos hoje em dia motores de busca incríveis. Podemos estar sentados no sofá e andar à procura de várias coisas, inclusive de música. O meu desejo, digamos assim, é que as pessoas cultivem e se alimentem mais da cultura, que procurem e saiam de casa com a família e levem os filhos aos concertos. E as pessoas quando o fazem sentem-se muitíssimo bem. É engraçado, que é quase como ir ao ginásio: as pessoas quando vão e conseguem ir ao ginásio saem de lá e sentem-se maravilhosas.

As pessoas se conseguirem cultivar a cultura e irem várias vezes aos concertos, aos espetáculos, ao teatro, vão sair de lá mais contentes, mais maravilhosas e mais realizadas com elas próprias. É só mesmo conseguir dar o primeiro passo.

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