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Opinião: Não é assim que o amor se paga

O adeus quase certo do jogador mais preponderante da equipa

Há amores que não se explicam, sentem-se. Há lugares que nos marcam, pessoas com quem criamos laços, momentos que ficam e, sobretudo, símbolos que significam mais do que a vida para nós. Não se tem de sentir borboletas na barriga e um ardor no peito por todas camisolas que se enverga. Nem todos os clubes têm a especial habilidade de, com o seu jeito, história e, acima de tudo, magia, deixar marca em quem passa. O Belenenses foi assim. Em tempos. E o Miguel Rosa foi um dos maiores casos recentes de alguém que chegou, viu e quis ficar para sempre num clube que tornou seu. Hoje, 7 anos depois de ter envergado pela primeira vez a pesada Cruz de Cristo, querem manda-lo fora do clube.

Chegou miúdo. Aos 22 anos era com surpresa que chegava ao Restelo uma das grandes promessas do futebol português e uma das principais pérolas do Benfica à data. A equipa do Belenenses era fraca e o pesadelo da 2ª divisão parecia estar para durar. Com golos vitais em Barcelos e na Póvoa do Varzim, Rosa ajudou a evitar o descalabro que teria sido a descida à 2ª B. Depois do período mais negro da história dos azuis do Restelo, Miguel fez finca pé na Luz para ficar mais uma temporada num clube que cedo aprendeu a amar. Ninguém se esquece dos festejos sempre com os adeptos mal tinha chegado ao clube, das juras de amor eterno ainda emprestado pelos encarnados e dos sinais de respeito perante a ira de quem é o coração de um clube: os adeptos. Foi um amor quase instantâneo e de parte a parte que se reflectia na magia em campo e no apoio nas bancadas. Ninguém ficava indiferente.

Miguel Rosa acabou por ficar e foi, mais uma vez, fulcral numa temporada de 2011/2012 que teve um final surpreendente e na qual marcou 13 golos, sendo uma das pedras basilares da equipa. No fim da época foi forçado a abandonar o barco e voltou à Luz contrariado e sempre com o azul no horizonte. Após uma época soberba no Benfica B onde foi, sem sombra de dúvidas, o melhor jogador da 2ª Liga (novamente, aliás), Rosa aproveitou o balanço da subida do Belenenses e não hesitou mal soube que havia a oportunidade de voltar onde se sentia feliz: no Restelo. Perdeu a pré-época, abdicou de condições melhores e até apareceu a coxear, só para estar presente na apresentação aos sócios.

A partir daí é história. Um jogador que aprendeu a amar o clube, que sempre pôs todos os interesses do Belenenses à frente dos seus, rejeitando propostas financeiramente mais vantajosas, países com outras condições, clubes com diferentes ambições, treinadores com outras visões. Tudo em nome e prol de um amor maior que sempre demonstrou quando batia com a mão na Cruz de Cristo, quando agarrava o símbolo com tanta força quanto a alegria que sentia ao enverga-lo, quando gritava para a câmara “O Belém voltou, c******” após um golo, nos festejos emocionados com os adeptos, na raiva por ser impedido de jogar, nos gritos de euforia de quem evitava a descida na última jornada, dos saltos em lágrimas de quem ia à Europa 13 anos depois ou simplesmente nos momentos em que a cabeça era pesada demais para sair do chão por estar a passar a pior fase do clube. Que é seu e que o quer como seu. Nunca escondeu de ninguém o seu maior desejo: ficar no clube e ser uma lenda. Onde seria amado pelos adeptos. Os seus adeptos, que não esquecem de quem gosta deles e valorizam mais do que tudo quem ama o que eles também amam, que é este estranho e tortuoso Clube de Futebol “Os Belenenses”.

É uma história de amor como há poucas no futebol português. Foram 6 épocas, quase 200 jogos e 45 golos. Muito suor vertido em prol do amor que o fez sempre continuar e que, aos 28 anos, o impedia de ir embora. O amor que poucos sentem e que nenhum transmite como Miguel Rosa. Numa história tão vasta e rica como a do Belenenses, vão-se perdendo cada vez mais as pessoas que admiramos e pouco a pouco ficaremos só com os heróis do passado.

A isto, meus amigos, só se pode chamar delapidar património. Destruir o clube. A isto, se chama ficar descaracterizados e sem símbolos de história recente. A isto, se chama matar o Clube de Futebol “Os Belenenses”.

Ao Miguel, que foi sempre o último a largar o leme desta tão pesada Caravela, só podemos pedir desculpa pela inevitabilidade do destino e desejar-lhe o que todos os grandes merecem: sucesso. Quanto a nós, esperar-te-emos sempre, porque os jogadores que tudo dão pelo que é nosso, serão sempre um pedaço deste clube. Que o destino una os destinos de quem se foi obrigado a separar. E que ao mesmo tempo puna quem fez isso acontecer.

Costuma-se dizer que “amor com amor se paga”, mas não é desta forma que se paga o amor.

Obrigado, Miguel Rosa.

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