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26 de Maio de 1946 – Conquista do Campeonato Nacional da Primeira Divisão

By oficinadosite

// 25 de Maio de 2014

Nos últimos anos temos assistido ao reescrever da História do Futebol (e do Desporto) Português, e a grande vítima dessa mentira é o Belenenses.

Tende-se a fazer crer que em Portugal sempre houve – e só – 3 clubes grandes, que sempre dominaram a larga distância de todos os outros. E que, muito ocasionalmente, quase por um capricho da sorte, o Belenenses e, mais tarde o Boavista, foram intrusos passageiros.

Ora, a verdade é toda outra, visto que o Belenenses fez incontestavelmente parte, durante 5 ou 6 décadas de um quarteto de grandes; foi 4 vezes o melhor de Portugal; durante décadas e décadas seguidas era sempre candidato indiscutido e assumido a todos os títulos nacionais (Campeonato de Portugal, Campeonato Nacional e Taça de Portugal); e se só ganhou um Campeonato Nacional, esteve na luta pela sua conquista muitos e muitos anos até bem perto do fim – aliás, por 5 vezes chegou à última jornada a poder ser Campeão.

É também por isto que temos que nos alargar neste artigo.

O Belenenses do fim dos anos 20 e começo dos anos 30, havia-se imposto como um clube vencedor e, nesse período, sem dúvida, o mais bem sucedido de Portugal.

Em 7 ou 8 anos de ouro, o Belenenses foi 3 vezes Campeão de Portugal (1927, 1929 e 1933) e 2 vezes Vice-Campeão (1926 e 1932). Além disso, numa prova que ao tempo tinha imensa importância, foi, no mesmo período, 4 vezes Campeão de Lisboa: 1926, 1929, 1930 e 1932. Ou seja, nestas 8 épocas, só numa delas não conquistámos nenhum título (1928).

Começou então um período de forte investimento nas estruturas, designadamente nas Salésias. Recapitulemos os passos principais:

1931 – Inauguração do corpo central de bancadas no Estádio das Salésias. Abertura de delegação na baixa lisboeta.
1934 – Construção de Pista de Atletismo nas Salésias, a melhor do país.
1936 – Bancadas do Estádio das Salésias são aumentadas.
1937 – Salésias tornam-se 1º campo relvado de Portugal.
1938 – Estádio das Salésias, o melhor de Portugal, é pela primeira vez palco de jogo da selecção nacional de futebol, que ali disputará todos os encontros realizados em Portugal até 1942
1939 – Estádio das Salésias aumenta capacidade para 21.000 pessoas
1940 – Inicia-se publicação de boletim mensal. Beneficiação da pista de Atletismo nas Salésias
1941 – Iluminação do Campo de Basquetebol nas Salésias (custeada integralmente por Acácio Rosa).

Por outro lado, perdemos alguns jogadores fundamentais: em Outubro de 1931, Pepe morre tragicamente, com 23 anos (quantos títulos teríamos ganho nos 10/12 anos que, normalmente, lhe restariam de carreira?); em 33/34, os “olímpicos” Augusto Silva e César Matos puseram termo á sua carreira.

Veio então /em seguida a 1933) uma meia-dúzia de anos de menor fulgor. Quando dizemos menor fulgor, temos em conta o que era o Belenenses de então, quando o 2º lugar era considerado frustrante, o 3º lugar, banal, o 4º lugar, mau e o 5º lugar, desastroso. Assim era: o 5º lugar no Campeonato Nacional de 37/38 foi visto como desastroso. Considerávamo-nos em crise acentuada…

Apesar disto, o Belenenses era um clube de topo, cuja força ninguém se atrevia a discutir. Mesmo em crise, chegámos á última jornada do Campeonato da I Liga (o primeiro a ser disputado) com possibilidades de ser campeões (tivemos, aliás, o melhor Ataque e o melhor goal-average) e fomos Vice Campeões Nacionais em 37/38. No Campeonato de Portugal, fomos finalistas em 35/36, depois de deixarmos Leixões, F.C.Porto e Benfica pelo caminho.

E chegou a década de 1940. O Belenenses dos anos 40, era um clube estabilizado no topo do desporto nacional. Não tinha a primazia de títulosmas vinha logo a seguir a Sporting e Benfica, em relativa igualdade com o F.C.Porto. Era este o quarteto (não o trio) dos clubes grandes. Em popularidade, embora o Benfica e o Sporting lhe levassem a palma, pela sua maior antiguidade, por maiores cumplicidades na imprensa, por causa dos célebres duelos ciclísticos entre Nicolau e Trindade, também se cotava indiscutivelmente como um dos 4 grandes, o que era aferível, entre outras evidências, pelas assistências aos jogos – impressiona ver as Salésias, com uma lotação oficial de 21.000 pessoas, cheia de público, e ainda rodeada de mais gente pela encosta sobranceira ao peão acima. Pode ver-se também o “encorpamento” do clube nos anos 40, através do aumento da sua massa associativa até números bastante significativos: em 1943, há um pouco mais de 4.000 sócios; em 1944, perto de 5.000; em 1945, atingem-se os 6.800; em 1946, quase se alcançam os 9.000; em 1946, lança-se a campanha dos 12.000 sócios – sempre próximos dos outros grandes. Note-se que, naqueles tempos, os sócios eram adeptos de corpo inteiro. Por outro lado, de 26 filiais e delegações em 1939, passa-se para 43, uma década depois.

Entretanto, a equipa de Futebol voltava a estar em crescimento, abalançando-se de novo às grandes conquistas. À maturidade de Amaro, Rafael e José Simões, iam-se juntando outros mais jovens que vieram igualmente a ser figuras imensas do Belenenses: Artur Quaresma, Serafim das Neves, Vasco, Feliciano…

Vejamos a evolução futebolística do Belenenses na década de 40.

1939/40 – Finalista da Taça de Portugal. 3º Lugar no Campeonato Nacional. Melhor defesa no Campeonato Nacional. em Futebol. Ficámos a 4 pontos do 1º (Sporting) e a 1 ponto do 2º (F.C.Porto). 3º Lugar no Campeonato de Lisboa. Campeão de Lisboa de Juniores, em Futebol.

1940/41 – 3º Lugar no Campeonato Nacional. Melhor ataque, melhor defesa (2ª vez consecutiva) e melhor goal-average no Campeonato Nacional (59-22). Ficámos a 4 pontos do 1º (Sporting) e a 1 ponto do 2º (F.C.Porto). Foi pena que tivéssemos começado mal o Campeonato pois, na 2ª volta, fomos a equipa que obteve maior pontuação. Relativamente ao Benfica, recuperámos 5 pontos de atraso e concluímos com 1 ponto de avanço. Finalistas da Taça de Portugal. 3º Lugar no Campeonato de Lisboa (com goleada 8-3 sobre Benfica mas derrota 7-1 com o Sporting).

1941/42 – Vencedor da Taça de Portugal (após 3ª presença consecutiva na Final; Triunfo por 2-0 sobre o Vitória de Guimarães). 3º Lugar no Campeonato Nacional. Goal average: 66-32. Fomos a 2ª equipa mais pontuada na 2ª volta. Destaque para as expressivas vitórias sobre o Benfica (4-0, nas Salésias), o Sporting (3-1 nas Salésias e 4-1 fora) e o F.C.Porto (7-3 em casa e 3-2 fora). 3º Lugar no Campeonato de Lisboa.

1942/43 – 3º Lugar no Campeonato Nacional (4º presença consecutiva no pódio). Melhor ataque, melhor defesa e melhor goal-average no Campeonato Nacional (78-20). Totalmente vitorioso nos jogos em casa do Campeonato Nacional. O Campeonato esteve em vias de ser ganho. A meio da competição, liderávamos, em igualdade de pontos com o Benfica, e com 3 pontos à maior sobre o Sporting. No final, o Belenenses ficou a 2 pontos do 1º (Benfica) e a 1 ponto do 2º (Sporting).

1943/44 – Campeão de Lisboa. Melhor conjunto de Pontos nas 4 Categorias do Campeonato de Lisboa. No Campeonato Nacional, ficámos num decepcionante 6º lugar mas, atenção, andámos na luta pelo título. No fim da 1ª volta, éramos os líderes do Campeonato: o Sporting estava a 1 ponto, o Benfica e o Atlético a 2, o F. C. Porto, a 6.

1945 – 3º Lugar no Campeonato Nacional. Goal average: 72-29. Maior número de golos de sempre marcados num só jogo do Campeonato Nacional (15). O Belenenses ficou a 3 pontos do Benfica e com o mesmo número de pontos do Sporting. Foi a equipa mais pontuada na 2ª volta (ganhado a embalagem que o faria Campeão Nacional e Campeão de Lisboa na época seguinte). Lutou até ao fim pelo título, do qual foi em grande medida afastado por situações vergonhosas de arbitragem. 3º lugar no Campeonato de Lisboa. Demos início a uma relação privilegiada com o Real Madrid, com quem empatámos 2-2 em Espanha (deixando cartel, que renderia juros) e a quem ganhámos por 1-0 nas Salésias. Esse tipo de contactos foi mais um golpe de asa do Belenenses – nos tempos em que se atrevia a tanto…

1945/46 – Campeão Nacional. Goal Average: 74-24. Melhor defesa no Campeonato Nacional. Invicto nos jogos em casa do Campeonato Nacional. Campeão de Lisboa (3 pontos de avanço sobre o Sporting, 5 sobre o Atlético e 6 sobre o Benfica). Melhor conjunto de Pontos nas 4 Categorias do Campeonato de Lisboa. Vice-Campeão de Lisboa de Juniores. 6 jogadores do Belenenses presentes na vitória da selecção nacional de Futebol em jogo contra a França.

(A isto somavam-se, nesta meia década, vários títulos nacionais e de Lisboa, em modalidades como o Andebol, o Atletismo – Feminino e Corta-Mato –, o Basquetebol (Masculino e Feminino), o Rugby, o Ténis – Feminino – e o Ténis de Mesa; enfim, toda a força de um grande clube!)

Vê-se, por aqui, que a vitória do Belenenses no Campeonato Nacional de 1946, foi algo de absolutamente natural, que se aguardava a todo o momento (pois vinha sendo adiada por detalhes) e que todos estimavam que se repetisse em breve.

Com efeito, já tínhamos sido anteriormente 3 vezes Campeões – os melhores – do nosso país. Eram Campeonatos de Portugal em vez de se chamarem Campeonato da I Liga ou Campeonato Nacional? Pois eram. E daí? Eram a forma que então havia de se encontrar o melhor de Portugal. Sem mais. Repare-se aliás, no título da Bola sobre o nosso triunfo de 1946 “O Belenenses é Campeão de Portugal”.

Em 25 de Novembro de 1945, o Belenenses tinha-se sagrado Campeão de Lisboa, pela 6ª vez.

Duas semanas depois, em 9 de Dezembro de 1945, com um empate no Campo do Sporting, iniciou-se a grande aventura que culminou na conquista do Campeonato Nacional.

A sequência de resultados foi a seguinte:

Sporting – Belenenses – 1-1
Belenenses – Académica – 7-0
Belenenses – Boavista – 6-1
Oliveirense – Belenenses – 0-1 (chegada ao 1º lugar)
Belenenses – V. Guimarães – 5-1
V. Setúbal – Belenenses – 1-4
Belenenses – Atlético – 2-2
Benfica – Belenenses – 2-0
Belenenses – F.C.Porto – 3-2
Olhanense – Belenenses – 2-0 (descida para 2º lugar)
Belenenses – Elvas – 5-2
Belenenses – Sporting – 2-1
Académica – Belenenses – 1-3
Boavista – Belenenses – 1-4
Belenenses – Oliveirense – 10-0
V.Guimarães – Belenenses – 2-4
Belenenses – V. Setúbal – 3-2
Atlético – Belenenses – 2-4
Belenenses – Benfica – 1-0 (reconquista do 1º lugar)
F.C.Porto – Belenenses – 0-1
Belenenses – Olhanense – 6-0
Elvas – Belenenses – 1-2

Depois da preciosa vitória sobre o Benfica, nas Salésias, o Belenenses defendeu valorosamente a sua vantagem em casa do F.C. Porto (onde o adversário directo, o Benfica, também ganhara). Manteve-se firme na recepção ao Olhanense (que não era um adversário qualquer: note-se que ficou em 4º lugar, com um goal-average de 65-39). No entanto, a vantagem de 1 ponto impunha a necessidade ir ganhar a Elvas.

A tarefa não se afigurava muito fácil. O então Sport Lisboa e Elvas era filial do Benfica – que para aí mandou, durante quinze dias, um técnico seu –, e iria tentar afastar-nos do título.

E o jogo não podia ter começado pior para nós. Logo aos 2 minutos, o Elvas colocou-se em vantagem. O Belenenses, até ao intervalo, apesar de todo o esforço desenvolvido, não conseguiu chegar ao golo. E era preciso mais do que um golo: o empate não bastava. Algum desânimo começava a insinuar-se…

Ao intervalo, alguns jogadores mais experientes ou mais frios reuniram a equipa, procuraram readquirir a calma e reagrupar as forças, dizendo: “Nós temos que ganhar isto!”. E ganharam!!!

A equipa cerrou fileiras e foi para a frente, à procura dos golos. Aos 66 minutos, o Vasco, o grande e inquebrantável Vasco fez uma das suas arrancadas, foi por ali fora, junto à lateral direita, ultrapassando todos os adversários que se lhe colocavam no caminho. Só em falta foi travado. Do livre, resultou o golo, apontado por Andrade.

Faltavam 24 minutos e era preciso mais um golo. A nossa equipa agigantava-se agora. Vasco parecia um Titã. Aos 77 minutos, foi ele novamente a invadir o meio-campo contrário e ceder a bola a Artur Quaresma. Arrancou este para a área contrária e disparou o remate que, à boca da baliza, Rafael desviou para golo. Era o 2-1. Tínhamos o Campeonato ao nosso alcance!

Seguiu-se um quarto de hora de ansiedade, apesar do Belenenses dominar o jogo completamente. Até que soou o apito final. Erguidos todos num abraço ao treinador Augusto Silva, os atletas azuis, banhados em suor e lágrimas gritavam “Belém! Belém! Belém!”, enquanto o público belenense invadia o campo para celebrar.

Belenenses Campeão! Oh, quanto queremos voltar a ver, a ler, a ouvir, a gritar isto: BELENENSES CAMPEÃO!

E a festa alastrou de Elvas até à capital (com ecos em todo o país). A aproximação e chegada a Lisboa da caravana belenenses foi apoteótica. Milhares de belenenses tinham-se deslocado a Elvas, em carros, camionetas e por comboio… Aqui e acolá, gente acenava e festejava nas estradas. A partir de Setúbal, foi sempre em crescendo: havia aclamações em praticamente todas as localidades por onde se ia passando, cada vez mais intensas à medida que se aproximava a margem Sul do Tejo. Em Cacilhas, o largo principal, em frente do local onde se apanham os barcos, estava repleto de pessoas, que queriam festejar o título e vitoriar os jogadores. Do outro lado, avistava-se o Cais do Sodré inundado de gente, que se ia tornando mais nítida à medida que o barco se aproximava. As aclamações estenderam-se desde o Cais do Sodré, por toda a Avenida 24 de Julho, ladeada por milhares de pessoas, num cordão quase ininterrupto, com inúmeras bandeiras do Belenenses, até (uns bons 5 kms depois) culminar entusiasticamente em volta da nossa, tão nossa, estátua de Afonso Albuquerque (ali onde o clube nascera) e diante da sede em Belém, onde os jogadores, em especial o Capitão Amaro, e também o treinador Augusto Silva, vieram à janela agradecer os aplausos e incentivos. A festa do Belenenses!

Ad eternum aqui ficam os nomes dos jogadores campeões nessa época:

Mariano Amaro, 22 jogos (o capitão da equipa);
Artur Quaresma, 22 jogos e 14 golos;
Serafim Neves, 22 jogos;
Vasco Oliveira, 22 jogos;
Armando Correia, 21 jogos e 14 golos;
António Feliciano, 20 jogos e 2 golos;
Francisco Gomes, 20 jogos;
António Capela, 19 jogos;
Rafael Correia, 19 jogos e 12 golos;
Manuel Andrade, 14 jogos e 19 golos;
José Pedro, 13 jogos e 6 golos;
António Elói, 10 jogos e 1 golo;
Mário Coelho, 9 jogos e 4 golos;
José Sério, 3 jogos;
Francisco Martins, 2 jogos;
Mário Sério, 2 jogos;
António Martinho, 1 jogo e 1 golo.

O treinador foi o imortal Augusto Silva: aos 3 títulos de Campeão de Portugal ao serviço do Belenenses, juntava agora, como treinador – o 1º português a consegui-lo – o título de Campeão Nacional. Nesse mesmo ano, foi convidado para Seleccionador Nacional.

Na época de 1945/46, os Presidentes da Direcção do Belenenses foram Octávio de Brito e Constantino Fernandes.

JMA

Fonte: Os Belenenses

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