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Entrevista a Fredy – “Claro, claro que sim!”

Menos de 24 horas depois de Fredy ter anunciado a sua saída do Belenenses para o Libolo de forma emocionada, tivemos o prazer de nos sentarmos à mesa, com aquele que será certamente o nosso jogador mais emblemático do nosso actual plantel.

Foi mais uma conversa informal do que uma entrevista, uma vez que estávamos entre amigos. Tentámos perceber toda a sua carreira e o que fez Fredy ser um grande jogador e homem, do Belenenses, com apenas 24 anos.

Queremos desde já agradecer a simpatia e disponibilidade do Fredy, para nos conceder esta entrevista.

C.A. – Boa tarde Fredy. Muito obrigado por concederes esta entrevista ao site “Comunidade Azul”.

Primeiro em nome pessoal, da C.A. e de todos os Belenenses um grande obrigado por tudo o que tens feito ao longo destes anos pelo nosso Clube. É para mim uma grande emoção estar aqui contigo a entrevistar-te nesta altura.

Gostávamos de explorar um pouco como foi a tua carreira desde o início, como o Futebol surgiu na tua vida e como é que despertaste para o Futebol. Foi na rua, como foi?

Fredy – Para já também queria agradecer a vocês por me darem a oportunidade de fazer uma entrevista. É lisonjeador o vosso convite e é sempre bom poder fazer uma despedida com pessoas que sentem o Clube da mesma forma que eu.

A minha vida de futebolista começou no bairro social que cresci, na Costa da Caparica. Os mais velhos, o meu irmão, familiares e amigos jogavam todos à bola. Normalmente faltava sempre alguém para a baliza. Então lá tinha que ir o menino mais novo para a baliza, que era eu. Comecei a ganhar o gosto. Depois tive a oportunidade de um pai de um colega meu que nos ia ver a jogar. Na altura estava na baliza e ele convidou-me para ir treinar aos Pescadores, tinha eu 7, 8 anos.

Fui para os Pescadores, tive lá 3, 4 anos como Guarda-Redes e depois nos últimos 6 meses o treinador perguntou-me se eu não gostava de jogar na frente, porque eu tinha a mania que era o Iguita, dava mortais, agarrava na bola e tentava fintar toda a gente. Surgiu a hipótese de ir para a frente e foi até agora.

C.A. – E como é que aparece o Belenenses, como te tornaste Belenenses e tiveste o primeiro contacto com o Clube?

Fredy – O primeiro contacto que tive com o Belenenses foi com a minha mãe que trabalhou aqui no Belenenses durante muitos anos, por volta duns 16, 17 anos, nas piscinas. Desde muito novo que vinha às piscinas. Era muito pequeno, tinha uns 3, 4 anos de idade. A primeira imagem que tenho do Estádio do Restelo foi uma derrota em 96 ou 97, com o Boavista, com a minha mãe. Eu e o meu pai viemos buscar a minha mãe e depois fomos ver o jogo e este foi o primeiro contacto com o Estádio do Restelo. Depois vinha muitas vezes com a Igreja, vinha muitas vezes cá ao Estádio, eles faziam trabalhos com os bairros sociais.

O Belenenses esteve sempre na minha vida porque a minha mãe teve aqui durante muitos anos, então eu constantemente estava aqui. No meu último ano nos Pescadores, saí da Costa da Caparica e fui morar para o Seixal. A minha mãe via-me muito triste pois não tinha possibilidade de ir treinar aos Pescadores. Era longe, saía muito tarde, era muito novo. Na altura estudava eu e a minha irmã que era 3 anos mais velha e não havia muitas hipóteses. Então a minha mãe perguntou-me se queria vir treinar ao Belenenses e eu disse “Claro que sim!”. Vim cá, tive uma semana à experiência e até hoje…

C.A. – Nos escalões jovens e ao longo destes anos, há algum momento que tu guardes como especial, o que sentias quando jogávas? Ias tendo a percepção do que era o Belenenses e há momentos que guardes com mais carinho?

Fredy – Guardo com carinho todos os momentos, mas o momento que eu guardo com mais carinho foi a minha última época de Júnior. Foi uma época extraordinária que eu e os meus colegas fizémos. Batemos todos os recordes que existiam da formação do Belenenses. Tínhamos uma equipa excelente, com alguns jogadores que agora estão nesta equipa. Apesar de ter outros, este terá sido o mais marcante.

C.A. – Quando jogávas nos escalões jovens, sempre acreditaste que podias vir a jogar na equipa sénior. Era algo em que pensavas?

Fredy – Até aos iniciados treinava mais por diversão, gostava de estar com os meus colegas, de vir. Passava o dia todo a jogar à bola na Escola e vinha para aqui, queria era jogar futebol. Depois comecei a levar mais a sério e a criar os meus objectivos, quando fui chamado pela primeira vez à selecção nos juvenis. Tive um treinador que me disse que tinha potencial para chegar longe. Então foi aí que comecei a acreditar, a acreditar em mim e a tentar, o feedback que as pessoas me passavam e eu disse «sou capaz de lá chegar e vou trabalhar para isso»

C.A. – O que sentiste nessa altura, quando chegaste aos seniores e fazes o teu primeiro jogo, no ano de 2008?

Fredy – Eu era júnior ainda. Fiz a pré-época, eu, o André Almeida, o Tiago Almeida com a equipa principal e correu muito bem, só que não tive oportunidade. Nesse ano assinei o meu primeiro contrato, não tinha empresário. Assinei eu e o meu irmão e tinha uma clausula no contrato que se fizesse uns X jogos, o contrato era renegociado e o engraçado foi que o meu irmão virou-se para o Presidente e disse “Eu acredito que no final desta época o meu irmão vai estar aqui consigo” e o Presidente começou-se a rir e verdade é que aconteceu.

Foi um momento muito especial para mim, porque quando estamos na formação o nosso sonho é chegar à equipa principal, então quando cheguei foi uma alegria enorme. Felizmente tive jogadores que nessa altura, foram um grande apoio para mim. Apoiaram-me ao máximo. E tenho de estar muito grato ao Mister Jaime Pacheco por ter-me dado essa oportunidade. Tenho de lhe agradecer para o resto da vida porque se não fosse essa oportunidade não estaria onde estou.

C.A. – Nos seniores estivestes muitos anos e em 2012 sais. Vais para o Libolo e voltas ainda na época de 2012/2013. Sabemos que quando regressaste aceitaste condições menos favoráveis do que as que tinhas, como é do domínio público. O que te fez regressar? Estavas no teu país, a ganhar bem. O que faz regressar um jogador ao Belenenses?

Fredy – Quando fui para o Libolo, fui mais porque estava numa fase complicada da minha vida. Tinha tido uma lesão, não estava psicologicamente numa boa fase e o Libolo era uma oportunidade para recuperar bem a minha forma física, pelo estilo de campeonato que era. Era uma coisa nova que me podia dar ânimo. Um estimulo. Fui. Era para ficar um ano, mas passado 3, 4 meses não me sentia feliz. Não me sentia realizado. Sentia falta de estar em casa, sentia falta dos amigos, da família. Então surgiu a hipótese com o Mr. Mitchel, que temos o mesmo empresário. Ele perguntou-me qual era a minha vontade de vir para o Belenenses. Mas havia uma nuance que era o meu salário e eu disse que por mim não havia problema. Eu queria era estar feliz e sabia que ao voltar para o Belenenses ia estar feliz. Não foi preciso muito. Foi chegar e assinar.

C.A. – E nesse ano fizeste uma grande época. Disputaste 38 jogos, marcaste 13 golos. Subimos com muitos pontos de avanço, vitórias e golos. A dominar completamente a Segunda Liga e a praticar muito bom futebol. Depois na Primeira Liga, as coisas não correram muito bem. Consideras esse um momento baixo na carreira, ou que fase considerarias a pior da tua carreira?

Fredy – O momento mais triste da minha carreira até agora foi a minha lesão, porque estava bem e ficar sem jogar futebol durante sete meses, deixou-me psicológicamente em baixo. Felizmente tive o apoio de muita gente que me ajudou. A minha família, a minha namorada, os meus amigos, as pessoas que trabalham comigo e muitos adeptos do Belenenses, mesmo, que me davam ânimo! Esse foi o momento mais marcante da minha carreira em termos negativos.

A época passada foi uma fase muito complicado. A equipa começou mal e depois estávamos a dar uma resposta muito boa, quando tivemos aquela infelicidade do Mr. Mitchel que pesou em toda a gente. A equipa voltou a cair e com a sua saída baixou o rendimento. Era como um pai para nós. Mas não acho que tenha sido um dos piores momentos da minha carreira no Belenenses. Terá sido mais no ano em que descemos de divisão. Foi um ano muito triste para mim.

C.A. – Fredy, também passastes por bons momentos. Momentos que consideres altos na tua carreira no Belenenses, há algum especial, que guardes com mais carinho, que te venha logo à cabeça, como algum golo?

Fredy – Todos os momentos! Todos os momentos são marcantes. Mas sem dúvida a subida de divisão. A confirmação de sermos campeões da Segunda Liga. Termos chegado à meia- final da Taça de Portugal. O apoio das pessoas, o que sentimos dos adeptos do Belenenses, também foi uma coisa súper especial. Acho que passei aqui momentos muito bons, são vários que podia referir mas esses marcaram-me muito.

C.A. – E lembras-te de algum golo que destaques?

Fredy – O Golo do Estoril, sem dúvida. Acho que foi o Golo que mais me deu gosto festejar. Senti que toda a gente estava ali. Era muita gente do Belenenses num jogo fora. Até o rapaz caiu lá para baixo. É uma imagem que não me sai da cabeça. Tenho lá essa filmagem e sempre que a vejo sinto mesmo…dá-me arrepios!

C.A. – Desde que foi anunciada a tua saída, de forma emocionada, têm-se multiplicado nas redes sociais e não só, os agradecimentos, o apoio, o carinho por ti. Já há muito tempo que não se via uma onda de apoio tão grande por um jogador. Esperavas esta reacção dos adeptos?

Fredy – Esperava uma boa reacção, mas não esperava tanto. Sei que tudo o que fiz, sempre que estou em campo tento dar o máximo para ajudar o Belenenses. Dou tudo o que posso e o que não tenho. Tento ir buscar forças para conseguir ajudar o Belenenses e sabia que os adeptos podiam estar gratos por causa dessa situação, mas não estava à espera de tanto.

Quando saí da flash interview quase a chorar, quando ia para o balneário, estava o Nuno, o nosso director, que é uma das pessoas que quando eu vim para o Belenenses ele já cá estava, jogámos juntos na formação até aos juvenis e quando ele me abraçou caí-me tudo. Senti o carinho das pessoas. Quando saí do jogo liguei à minha mãe, à minha namorada, tive a falar com elas e tivemos a chorar. Quando entrei no facebook fiquei…Muitas mensagens de apoio, a agradecer, muitos comentários. Sinceramente não estava à espera de tanto. Fizeram-me vir as lágrimas aos olhos novamente. E além dos adeptos, para um jogador, os colegas de equipa contam muito e felizmente tive colegas que me mandaram e fizeram uma homenagem no facebook. É lisonjeador. E isso deixou-me muito emocionado. Aí, caí em mim e disse «consegui fazer uma coisa muito boa». O meu objectivo foi sempre deixar a minha marca, conseguir fazer uma coisa muito boa, todos os dias trabalhar, todos os dias dar o máximo para que as pessoas fiquem contentes comigo e acho que felizmente consegui fazer isso.

C.A. – Fredy, já jogaste na Selecção Nacional nos escalões mais jovens, foste a qualificativas dos Sub-21, em 2011 e 2013. Agora estás na selecção de Angola em bom nível, tens sido dos melhores jogadores tendo até já marcado um golo.

Sais do Belenenses com muita emoção e custo, mas o que esperas do teu futuro e desta nova fase da tua carreira.

Fredy – Vou abraçar um novo projecto, uma coisa boa. O meu objectivo é continuar a ter uma boa prestação na Selecção de Angola. Conseguir levar o meu país ao mais alto nível. Conseguir ir à CAN. Acho que a selecção de Angola ainda não chegou às meias-finais ou quartos-de-final. O meu objectivo é chegar aí ou ir mais à frente. Ir outra vez ao Mundial. No Libolo gostava de voltar a ganhar o campeonato. Já tinha ganho, mas não foi a mesma coisa pois saí a meio e gostava de fazer história na Liga dos Campeões Africanos, que é dos objectivos que o Clube tem. É o que agora tenho como objectivo. Não gosto de pensar muito à frente. Gosto de pensara a cada dia e ir fazendo as minhas metas. Para o próximo ano as minhas metas são essas. Depois para a frente é continuar a crescer como jogador e continuar a minha carreira por forma a que tudo me corra bem.

C.A.- Sim, porque até és muito jovem.

Uma pergunta que temos de fazer. Esperas voltar ao Belenenses?

Fredy – Claro, claro que sim! Nem me passava não ter isso na cabeça. É o que eu dizia hoje aos meus colegas, foram 13 anos, não foram 13 meses nem 13 dias. É quase a minha vida toda. Para além de estar aqui estes 13 anos, foram muitos anos em que o Belenenses esteve ligado à minha vida e da minha família. Por isso o meu objectivo é mesmo esse. Crescer como jogador e um dia que voltar ao Belenenses, ser melhor jogador e conseguir ajudar o Clube a caminhar para os lugares que quer caminhar.

C.A. – Para terminar, uma palavra para os sócios e adeptos do Belenenses.

Fredy – Só tenho que agradecer do fundo do meu coração (pausa). Dizer que comigo sempre foram pessoas excepcionais, sempre me apoiaram ao máximo (nova pausa). Do fundo do coração que, todo o carinho que me deram, foi aquele que sempre tentei retribuir, dando o máximo. O amor que todos eles sentem é o amor que sinto pelo Belenenses. Espero que continuem a apoiar esta equipa porque é uma equipa muito boa. Todas as equipas passam por maus momentos e quando eles passarem espero que estejam lá para os apoiar, da melhor forma, como sempre fizeram nos momentos menos bons e é isso que desejo e agradecer do fundo do coração.

C.A. – Muito obrigado e deixa-me te dizer que a qualquer momento também estaremos lá ao teu lado. E agora despindo-me do papel de entrevistador… ALLEZ FREDY ALLEZ!

E foi assim que terminei a entrevista… No entanto, em conversa com o Fredy, ainda me disse que os jogadores podem ir para um sporting, benfica, porto, mas quando vêm para o Belenenses, sentem como este é um Clube especial, Grande e há algo que fica para sempre dentro deles.

E um ponto muito importante que fez questão que eu incluísse nos melhores momentos da sua carreira. Algo que contou a toda a equipa e à sua família

Num dia, cerca de uns 70, 80 miúdos das escolinhas vieram a um treino e estavam a pedir autógrafos. Uma criança chama por ele. Fredy pensava que o miúdo queria um autógrafo, mas ele disse que queria uma coisa… ” Podes-me dar um abraço?”

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