À conversa com M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville

M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville irá lançar no próximo dia 5 de dezembro, no Teatro Municipal São Luiz, o seu livro Dissecação de Um Cisne. Estivemos à conversa com o autor e performer para saber mais sobre este novo trabalho.

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M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville (Porto, 1985) introduz-nos a histórias autobiográficas centradas na desconstrução e reconstrução da identidade através de performances, desenhos, fotografias, vídeo, música e livros de artista.

Miguel Bonneville (c) Joana Linda
M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville ©Joana Linda

Desde 2003 tem apresentado o seu trabalho em galerias de arte e festivais nacionais e internacionais, sobretudo os projectos seriados Family Project, Miguel Bonneville e A Importância de Ser, e publicou edições de autor como Os Diários de C.C.Rausch, Jerôme, Olivier et Moi, e Notas de Um Primata Suicida. Recebeu o Prémio Ex Aequo (2015) pelas performances Medo e Feminismos, em colaboração com Maria Gil, e A Importância de Ser Simone de Beauvoir.

No dia 5 de dezembro, Bonneville lança o livro Dissecação de Um Cisne no Teatro Municipal São Luiz. Esta edição reúne desenhos, fotografias intervencionadas, registo de performances e textos originais, criados por Bonneville. O lançamento conta com a presença do autor e filósofo Pedro Arrifano.

CA Notícias: M̶i̶g̶u̶e̶l̶ , o teu trabalho performativo centra-se quase sempre na desconstrução e reconstrução da identidade, neste sentido o que nos vai mostrar a Dissecação de Um Cisne?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶:
A Dissecação de Um Cisne é uma tentativa de desaparição. Todos os meus trabalhos o são. Através da escrita sinto que essa tentativa é mais bem sucedida porque o próprio acto de escrever implica uma desaparição. Torno-me veículo sem a necessidade de ter um público, sem ter de o mostrar, e sobretudo sem ter de o explicar. Escrever também é performativo, os requerimentos são apenas outros.

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“Dissecação de Um Cisne”, M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville

CA: Porquê a imagem do Cisne?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶:
Foi o animal que se impôs. Há sempre uma história, uma razão, que faz com que um animal, a figura de um animal, se imponha. Mas contar essa história tirar-lhe-ia força.

CA: O trabalho agora apresentado em livro é fruto de uma residência artística realizada na La Box – École Nationale Supérieure d’Art de Bourges, em França. O livro era um objetivo antes da residência ou foi algo que surgiu durante o processo artístico?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶:
Havia, desde o início, a possibilidade de fazer uma publicação no final da residência. Por isso essa possibilidade sempre esteve presente. No entanto, não estava planeado que o tipo de trabalho que iria fazer se traduzisse em material sobretudo escrito. As primeiras ideias que tive durante a residência seriam apenas realizáveis em formato vídeo – pensei que teria de realizar um filme. E foi a partir daí que comecei a escrever. Comecei a escrever esse filme. E à medida que o fui escrevendo foram surgindo imagens que fui desenhando. E o livro foi ganhando forma.

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“Dissecação de Um Cisne”, M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville

CA: Esta residência artística foi a primeira fase para a criação do espetáculo A Importância de Ser Georges Bataille, que terá estreia a 14 de maio de 2019, no Teatro Municipal São Luiz. Que trabalho ainda se segue até à estreia do espetáculo?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶:
Até à estreia do espectáculo seguem-se muitas leituras, residências artísticas e ensaios dentro e fora de Lisboa com os intérpretes e co-criadores, reuniões com a equipa de produção, com a equipa técnica e com a restante equipa artística. Isto é o que é certo acontecer. Depois haverá certamente outros tipos de trabalhos e de solicitações inesperados que dificilmente poderei prever.

CA: O título do espetáculo invoca o escritor francês Georges Bataille, conhecido pela abordagem nos seus trabalhos a temas como o erotismo, a transgressão e o sagrado. Porquê este autor?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶:
Não tenho uma resposta clara para essa pergunta. Posso dizer que há obsessões comuns, que os trabalhos anteriores influenciam os seguintes, os autores anteriores influenciam os seguintes, embora não haja uma ordem cronológica; li Bataille, por exemplo, antes de ler Beauvoir ou Preciado. Tem a ver com um trabalho a que podemos chamar interior – embora não esteja certo de que haja interior – que requer que seja dado outro passo. E para dar esses passos socorro-me de figuras que me permitam dá-los. Talvez possa dizer que com Bataille, a partir de Bataille, através de Bataille, esteja à procura de entrar mais profundamente na noite.

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“Dissecação de Um Cisne”, M̶i̶g̶u̶e̶l̶ Bonneville

CA: O que nos podes revelar sobre o que será A Importância de Ser Georges Bataille?
M̶i̶g̶u̶e̶l̶: Aquilo que mais me agrada no que faço é nunca saber muito bem o que será – ou como será – a obra que estou a procurar fazer. Quando se trata de obras que são feitas em colaboração o mistério torna-se ainda maior. O que há para já é uma proposta: partir de Georges Bataille.

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