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2 de Julho de 1933 – Belenenses Campeão de Portugal pela 3ª vez

Esta é uma data que os belenenses que prezem a identidade e a grandeza do seu clube devem preservar no coração.

Nela, ainda antes de completar 14 anos de existência, o Belenenses guindava-se à posição de primeira potência do futebol português. Não nos referimos apenas a essa época mas a tudo quanto tinha decorrido durante esses 14 anos da nossa existência.

Para explicarmos esta afirmação, é necessário desmontar, antes de tudo, uma autêntica falácia. O Belenenses não foi uma vez Campeão de futebol no nosso país. Foi-o por 4 vezes.

Desde 1921/22 até 1933/34, houve uma prova que se destinava a apurar o campeão, a melhor equipa de futebol do nosso país. Era a forma vigente, e não vemos nenhuma razão para, tendo existido essa competição, com esse fim, e com regras aceites por todos, não serem considerados os campeonatos conquistados nesses anos.

Ora, esses Campeões devem, justamente, ser adicionados aos que, desde 1934/35, ganharam os Campeonatos da I Liga, os Campeonatos Nacionais e outros nomes equivalentes à mesma prova. Nessas 12 edições, foram assim distribuídos os títulos:

F.C.Porto – 3
Belenenses – 3
Benfica – 2
Sporting – 1
Olhanense – 1
Marítimo – 1
Carcavelinhos – 1

Donde, em rigor, os Campeões do nosso país, desde o momento em que passou a apurar a melhor equipa até hoje, foram os seguintes:

Benfica – 35
F.C. Porto – 30
Sporting – 19
Belenenses – 4
Olhanense – 1
Marítimo – 1
Carcavelinhos – 1
Boavista – 1

 

Dir-se-á: mas o Campeonato de Portugal era uma prova a eliminar; não pode, pois, ser vista em igualdade de circunstâncias com uma prova em que jogam todos contra todos.

Porque não, respondemos? No Campeonato do Mundo ou no Campeonato da Europa também as selecções não jogam todas entre si – e nem por isso se questiona a qualidade de Campeão Mundial ou Europeu.

Pela mesma ordem de ideias, a várias equipas europeias, por exemplo, não se deveria reconhecer o facto de terem sido campeão europeu: então chamava-se Taça dos Campeões Europeus, agora chama-se Liga dos Campeões; então era uma prova puramente a eliminar, agora tem a fase de grupos… Mas seria isso justo? Claro que não!

Outro argumento ainda avançado é o de que, nos Campeonatos de Portugal participavam poucas equipas. É verdade que, nas primeiríssimas edições (não aquelas que o Belenenses ganhou), os participantes eram poucos. Mas, diga-se, também os primeiros Campeonatos da Europa se resumiam, na fase final, a 4 selecções, e nem por isso deixam de ser considerados.

De qualquer forma, não é verdade que, nas edições que o Belenenses ganhou os participantes tenham sido poucos. Já agora, refira-se que os primeiros Campeonatos da Liga ou Nacionais, ganhos pelo F.C. Porto e pelo Benfica, tiveram só 8 participantes – e por tal razão não deixam de ser computados.

Em contrapartida, por exemplo, neste Campeonato de Portugal de 32/33, participaram 28 equipas! Acresce que, para lhe acederem, os clubes tinham que ser bem sucedidos nos Campeonatos Regionais – que, no caso de Lisboa, eram disputadíssimos, quase com o mesmo afã e denodo com que hoje se disputa um Campeonato Nacional, pelo Benfica, pelo Sporting, pelo Belenenses, pelos então poderosos Carcavelinhos e União de Lisboa e, até, durante vários anos, pelo Vitória de Setúbal.

A partir de 34/35, surgiram, então, os Campeonatos da I Liga/Nacionais, que realmente apuravam os melhores de Portugal; e os Campeonatos de Portugal que se disputaram desde essa época até 37/38, deviam ser considerados juntamente com a Taça de Portugal, que lhe sucedeu a partir de 38/39.

No mínimo dos mínimos, os Campeonatos de Portugal deveriam todos ser considerados juntamente com a Taça de Portugal – e, então, o Belenenses teria sido o vencedor de 6 edições (não de 3). Note-se, de resto, que nos troféus das primeiras Taças de Portugal está inscrita a designação de Campeão de Portugal (veja-se, na sala de troféus, a que conquistámos em 1942). Como veremos amanhã, quando Belenenses e Sporting se defrontaram na final da Taça de Portugal, o jornal “A Bola” considerou que era o 5º confronto entre as 2 equipas – ou seja, três para Taça de Portugal e 2 para o Campeonato de Portugal.

Agora, o que não lembra ao diabo e constitui um escândalo, é não se considerar em absoluto os Campeonatos de Portugal. No entanto, eles existiram! Urge repor a verdade!

Bem, e centremo-nos agora neste Campeonato de Portugal de 1933, que brilhantemente conquistámos. Na mesma época, o Belenenses foi Vice-Campeão de Lisboa. O Benfica ficou à nossa frente (apesar de termos tido o melhor Ataque e a melhor Defesa), e não conseguimos revalidar o título alcançado no ano anterior.

Iniciou-se então o Campeonato de Portugal. Vejamos a marcha da prova, não somente com os nossos resultados mas, também, com os dos nossos maiores rivais:

Na 1ª eliminatória, o Belenenses venceu o Lusitano de Évora por 5-1 (para que conste, o Lusitano de Évora participou em 14 Campeonatos da 1ª Divisão); o F. C. Porto bateu o Vianense por 8-0; o Benfica ganhou ao Marinhense por 6-0 e o Sporting venceu a União Operária por 2-1.

Nos oitavos de final, já disputados a duas mãos, a tarefa do Belenenses foi mais difícil: frente ao Carcavelinhos (que, recorde-se, fora Campeão em 1928), perdemos o 1º jogo por 3-2 mas seguimos em frente ganhando na 2ª mão por 5-1; o Benfica venceu ambos os jogos com o Comércio e Indústria por 2-0; o Sporting desembaraçou-se do Luso Barreiro, com um triunfo por 6-0 e um empate 1-1; o F. C. Porto arrumou a questão no 1º jogo, com uma vitória 9-1 sobre o União de Lisboa, sendo insuficiente o vitória desta última equipa, na 2ª mão, por 4-2.

Até aqui, tínhamos tido os adversários mais difíceis. E nos quartos-de-final, a tarefa não foi fácil, pois o nosso adversário, o Barreirense, era então um grupo muito forte.

Perdemos o 1º jogo por 2-1, marca com que ganhámos a 2ª mão. Houve, pois, necessidade de um desempate, que o Belenenses venceu por 4-1. Também o Sporting teve dificuldades: face ao Marítimo (que fora Campeão em 1926) ganhou por 3-1 mas sofreu depois, perdendo por 1-0. Por sua vez, F. C. Porto e Benfica defrontaram-se, com resultado invulgar: no seu campo, na Constituição, os portistas triunfaram por 8-0, só de consolação valendo a vitória do Benfica em Lisboa por 4-2.

Nas meias-finais, o Sporting e o Porto tiveram que ir a 3º jogo, depois de empates 1-1 e 0-0, prevalecendo a equipa verde-branca por 3-1. Quanto ao nosso Belenenses, praticamente resolveu a questão na 1ª mão, triunfando por 4-1 sobre o Vitória de Setúbal. No 2º jogo, um empate 3-3 foi suficiente.

E, assim, no dia 2 de Julho de 1933, Belenenses e Sporting disputavam a final no Campo do Lumiar, perante grande expectativa.

Perto de 25 mil pessoas, algo de gigantesco para a época, assistiram ao jogo. Foram até criadas carreiras especiais…

No livro Pontapé na Bola – Histórias do Futebol Português, de Fernando Correia (Sete Caminhos, Lisboa, 2006), podemos ler:

“Às três horas da tarde já os eléctricos iam apinhados de público para o jogo, que só começava às cinco e meia.

No Estádio não havia um único lugar vago e, no camarote presidencial, lindas colgaduras punham uma nota de bom gosto e elegância que emprestavam ao espectáculo uma maior beleza, tal como escreviam os jornais da época”.

O Belenenses apresentou o seguinte onze: Morais; José Simões e João Belo; Joaquim Almeida, Rodrigues Alves e César de Matos; Alfredo Ramos, Heitor Nogueira, Rodolfo Faroleiro, Bernardo Soares e José Luís.

Ao intervalo, o Sporting ganhava por 1-0, golo marcado aos 27 minutos. Aos 10 minutos, o Belenenses desperdiçara soberana oportunidade, com a bola a estar sobre o risco de baliza da equipa sportinguista.

Os nossos bravos rapazes voltaram determinadíssimos para a 2ª parte. Apesar do vento contra, Rodolfo Faroleiro, a passe de José Luís, fez o empate ainda no primeiro quarto de hora. Porfiou a nossa equipa, ciosa da vitória. Aos 73 minutos, depois de boa jogada de Alfredo Ramos, veio o 2º golo, novamente por Rodolfo Faroleiro (que mais tarde, como treinador, nos levou ao triunfo numa Taça de Portugal). O título adivinhava-se!

E aos 87 minutos, veio a confirmação: José Luís assinava o 3-1. Eramos campeões! A festa era belenenses, com muitos adeptos do Sporting a abandonar o campo. Deve, entretanto, destacar-se a cavalheiresca atitude do adversário, que enviou significativo telegrama ao Belenenses, felicitando pela vitória e reconhecendo o seu mérito.

A nossa vitória, além do mais, fora valorizada pelo facto de o jogo se ter disputado no campo habitualmente utilizado pelo Sporting (embora, naturalmente, neutralizado) e pela ausência do nosso grande capitão Augusto Silva. Assim, neste jogo, o nosso capitão foi João Belo, que recebeu o troféu das mãos do Presidente da República.

Aos jogadores foram entregues medalhas. O grande homem, futebolista, atleta e belenenses que foi Joaquim de Almeida, teve mais uma das suas nobres atitudes, correndo para Augusto Silva e oferecendo-lhe a sua medalha.

E ali estávamos! O Belenenses não era apenas o Campeão desse ano: era o mais poderoso clube de futebol em Portugal, no período de 14 anos que decorrera desde a sua fundação.

De facto, em Campeonatos de Portugal, o Belenenses e o F. C. Porto lideravam com 3 troféus (tendo ambos sido igualmente 2 vezes Vice-Campeões). O Benfica tinha 2, o Sporting (e o Marítimo, o Carcavelinhos e o Olhanense), 1.

No mesmo período, o Belenenses vencera 4 Campeonatos de Lisboa, o Sporting, 5, o Benfica (e o Vitória de Setúbal), 2.

A nossa superioridade sobre os rivais lisboetas era, pois, um facto numérico.

Quanto aos nossos adversários portistas, não podendo encontrar forma de desempate em Campeonatos Regionais (concorríamos em diferentes provas), outros factores dirimiam a questão: o Belenenses era o clube com mais jogadores representados na Selecção Nacional desde o início da sua actividade. Augusto Silva era o mais internacional dos jogadores portugueses e o Capitão da Selecção.

Todos estes feitos se verificavam apesar de, com apenas 23 anos, se ter dado a morte trágica de Pepe em 1931. Com mais 10 ou 12 anos de actividade desse jogador enorme, quantos mais títulos não teríamos conquistado!

Não admira, pois, que o 14º aniversário do clube tenha sido festejado com enorme alegria e pujança. Na altura, o Belenenses foi condecorado como Comendador da Ordem Militar de Cristo. Era o reconhecimento da força e do mérito do clube dos rapazes da praia.

Nesta data, José Rosa era o Presidente da Direcção. O Vice-Presidente era Francisco Mega, que veio a ser o homem que mais anos somados deteve a Presidência do nosso clube (1935-1938, 1939-1941, 1950-1954). Quanto à equipa técnica, era liderada pelo nosso ilustre fundador, Artur José Pereira.

JMA

Via: Os Belenenses

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