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No Restelo há um chefe de cozinha

No Belenenses é assim: o presidente mete o dinheiro e desenha o plantel; o treinador obedece e tem de fazer pratos bonitos. É um risco, mas com Lito Vidigal resulta.

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A sete jornadas da conclusão do último campeonato, a equipa do Belenenses, encravada na posição mais funda e indesejada da tabela classificativa, parecia condenada à extrema unção. Os resultados eram um problema que a matemática elevava à categoria de indesmentível, mas a qualidade exibicional também roçava o tétrico.

O risco de despromoção era então muito mais do que uma eventualidade; talvez só os mais devotos adeptos ainda acreditassem numa pirueta reabilitadora, que, de facto, ganhou forma a partir do momento em que Lito Vidigal, o terceiro treinador da temporada, entrou no Restelo, pôs as mãos na massa e, sem adição de ingredientes, confecionou um conjunto colecionador de pontos salvadores. Pela rapidez com que transformou descrença em esperança, o técnico teria toda a legitimidade para se imaginar numa posição privilegiada na hora de tecer o plantel para 2014/15. Do pensamento à prática, houve, porém, um muro intransponível: o presidente da SAD, Rui Pedro Soares, vetou a lista de reforços que lhe foi posta à frente dos olhos.

Manda quem mete o dinheiro, obedece quem recebe o salário. O princípio de construção e governação do plantel do Belenenses é quase um decalque da mais emblemática frase de “Non, ou a Vã Glória de Mandar”, um dos filmes icónicos do centenário realizador português Manoel de Oliveira: “O homem fez-se para lutar… para guerrear!” O que, adaptado, nos corredores do Restelo soa de forma diferente: “O treinador fez-se para treinar, para ganhar.” É preciso poder de encaixe – e Lito Vidigal mostrou que o tem.

Em vez de esvaziar o cacifo e descer ao universo dos desempregados, comportou-se – e comporta-se – como manda o manual do profissionalismo, fazendo deste trabalho uma oportunidade para reafirmar a competência, demonstrando que a recuperação em contrarrelógio na derradeira reta do campeonato anterior em muito se deveu à habilidade com que cozinhou os ovos.

E os primeiros resultados na Liga 2014/15, conseguidos com um plantel ordenado pelo presidente, estão à vista de quem os quiser analisar: duas vitórias (sobre Penafiel e Nacional), seis golos marcados e dois sofridos. É caso para dizer que, mais do que um “simples” treinador, o Belenenses tem um chefe de cozinha de confiança. Fugindo dos becos das precipitações, Lito Vidigal formou o onze-base com muitos dos componentes transitados da época 2013/14, juntandolhes os reforços Palmeira (exTondela) e Rodrigo Dantas (exBangu). Mas no duelo do passado fim de semana também deu tempo a Mailó (ex-Leixões), lançando-o para, nos minutos finais, congelar o 3-1 sobre o Nacional.

O tipo de gestão ditatorial que empurra os azuis do Restelo para a primeira linha das notícias positivas é perigoso, muitas vezes corre mal, ou só resulta mesmo quando o presidente encontra o “chefe”, perdão, o treinador certo para transformar a matéria-prima e dar-lhe uma imagem viçosa.

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